Se você apagou a marca d’água, você não ganhou uma foto. Você roubou um trabalho

Enquanto ferramentas de inteligência artificial tornam-se cada vez mais sofisticadas, a sensibilidade moral e a ética coletiva parecem regredir. Conforme reportagem veiculada pela página Corre Piauí, corredores de Teresina estão retirando com IA a marca d’água das fotos feitas por fotógrafos nas avenidas da cidade, para não terem que pagar pelo registro. 

Nas avenidas Marechal Castelo Branco e Raul Lopes, o dia de trabalho de um fotógrafo esportivo começa ainda na penumbra da madrugada. Lá estão eles, à espreita do instante decisivo, registrando a respiração pesada, a superação e o suor de corredores e atletas amadores. Há o investimento financeiro em equipamentos de alta precisão, o uso de computadores para edição, o custo do combustível, o marketing e os riscos reais de segurança nas ruas. 

Quando um algoritmo remove a marca d’água de uma fotografia para permitir que ela seja republicada sem custos, ele está invalidando horas de vigília, o peso do equipamento no ombro cansado e o risco físico assumido por quem estava lá, de corpo presente. Como bem sintetizou o fotógrafo esportivo Jardel Lindoso, em depoimento colhido pelo Corre Piauí: “A questão maior é do respeito. Pelo nosso esforço, dedicação, investimento alto, riscos. Nos sentimos roubados.” 

Na ânsia egoista por curtidas, engajamento ou na simples vaidade de exibir um momento bonito no próprio perfil, o indivíduo perde a capacidade elementar de se colocar no lugar do criador. Se escolhemos usar a inteligência artificial para subtrair o esforço alheio, revelamos que a nossa humanidade não acompanhou a velocidade das nossas máquinas. Continuamos presos aos mesmos impulsos primitivos de exploração, disfarçados agora com a sofisticação dos algoritmos.

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