A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço dedicado à reflexão sobre as questões humanas que atravessam o cotidiano. Em meio ao fluxo acelerado de informações, a coluna propõe um olhar sensível e aprofundado sobre relacionamentos, conflitos familiares, dilemas emocionais e os desafios da vida afetiva.
Os textos são construídos a partir de relatos enviados pelos leitores. Com absoluto sigilo e respeito à privacidade, cada história é transformada em uma análise psicanalítica que ultrapassa o caso individual e dialoga com experiências compartilhadas por muitas pessoas.
Se você deseja participar da Coluna Divã, envie seu relato para contato@boletimbrio.com ou entre em contato pelo Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por um leitor anônimo
Tenho 22 anos e estou no meu primeiro emprego. Em casa, meus pais sempre me proporcionaram tudo e agora a ficha para algumas coisas da vida adulta está caindo. Achei que começar a trabalhar seria mais simples, mas quase todos os dias sinto que estou cansado, desmotivado ou que aquele lugar não é para mim.
Agora percebo que tenho muita dificuldade para lidar com regras simples. Acordar cedo, chegar no horário, cumprir prazos e ouvir críticas me deixa irritado. Trabalho como auxiliar na área da saúde, minha chefe é uma mulher e nem sempre me sinto bem com isso. Às vezes penso que ficar desempregado é melhor do que passar por algumas coisas que acontecem comigo.
Também me incomoda ver colegas da minha idade lidando com isso com tanta naturalidade. Fico me perguntando se o problema é o trabalho ou se fui criado de um jeito que não combina com a vida adulta. Quero amadurecer, mas, ao mesmo tempo, sinto falta da facilidade que sempre tive. Não sei como encontrar esse equilíbrio.
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Caro leitor, você me lembra do Ben 10, personagem de um desenho animado de sucesso de 2005. Te chamarei de Ben 10 do Piauí pela coincidência do tema entre vocês dois: tema do sujeito que luta para se posicionar como “adulto” e sair do mundo da infância e da adolescência.
Na nossa jornada humana de crescimento, em cada fase da vida existe um sujeito que luta para ser visto, considerado e posicionado, sendo a fase da adolescência a mais sofrida delas pelo excesso de fatores que a atravessam. O sujeito adolescente está numa travessia de passagem ritualística de criança/adolescente para adulto, tanto a nível orgânico como psíquico. Imagine que, nesta fase, a dissociação mental é certa devido à mutação física/corporal que, a todo instante, insiste em surgir, depois dos 12 anos, todo dia, seu corpo aparece diante de seus olhos de forma diferente até a idade adulta, que as novas pesquisas científicas dizem que só acontece em torno dos 24 anos.

Logo se vê, Ben 10 do Piauí, que o seu ambiente corpóreo não ajuda a um assentamento mental e, na sua adolescência, se inicia a fase do tormento bio-psíquico-social que fará você lutar para ultrapassar este período “patológico” da sua vida, tido como normal.
Aliás, o Ben 10 do desenho animado, metáfora da ritualização de passagem do adolescente para a vida adulta, mostra bem isto: ele luta para controlar as pulsões sexuais agressivas que o corpo traz, contando com um objeto transicional (que ajuda na transição da fase infantil para a fase adulta); o Omnitrix. O Omnitrix é um relógio que faz uma ativação no corpo do Ben 10, transformando-o em uma mutação alienígena adulta, permitindo que ele seja como um outro adulto que enfrenta o mundo perigoso de igual para igual (assumindo uma identidade física e mental de um ser alienígena adulto de grande força).
O Omnitrix [relógio] é uma metáfora mítica muito interessante, pois coloca o relógio/tempo na condição de objeto de transição, que permite que o Ben 10 da animação avance o tempo rapidamente e cresça a ponto de se preparar para um conflito com um outro, exercitando a capacidade do adolescente Ben 10 de interpretar seus impulsos internos para um enfrentamento da vida, sentir empatia pelo outro, enfrentar o outro, perceber o outro como sujeito separado dele, colocar os seus impulsos agressivos para fora e enfrentar o medo paralisante de não conseguir integralizar as ambivalências sexuais, afetivas e cognitivas que a fase traz. O Omnitrix (relógio) permite também a Ben 10 experimentar ser adulto por alguns instantes, amadurecendo sua personalidade, e é uma metáfora certeira sobre os efeitos do tempo para um adolescente se tornar adulto. Na vida real, o tempo e a maturidade é que possibilitarão aos Ben 10 do Piauí (adolescentes em geral) crescerem e fazerem coisas que antes não podiam fazer, e não o relógio.
Há nos quadrinhos um desfile de ações ritualísticas e míticas que soa como metáforas de iniciação para qualquer adolescente crescer/amadurecer seu psiquismo, tais como: a quebra da onipotência narcísica do personagem (ao perceber que não pode vencer tudo) (castração), anúncio de liderança, internalização de lei sexual (respeito/convivência com a diferença) e o luto em elaboração da criança que ele foi via a confrontação da realidade.
Através da identificação adolescente em massa, o filme tornou-se um campeão de audiência, pois toca fundo nas questões de milhares de adolescentes de hoje: o conflito e a busca de tornar-se uma pessoa adulta.

Paradoxalmente, Ben 10 da carta, se pergunte: “Por que eu me identifico com o Ben 10?” (suponho que você tenha visto o filme/seriado e que seja mais um fã do desenho animado). A resposta é clara, porque o Ben 10 incentiva o enfrentamento do mundo adolescente e que seja ultrapassado, algo que está ficando mais raro de acontecer nos dias de hoje e algo que você tem dificuldade de fazer”.
Pesquisas mostram que, hoje em dia, o adolescente tem dificuldade de abdicar do mundo de fantasia e passar para o mundo real devido à “violência” das sociedades modernas, que os levam a um refúgio virtual que chamo aqui de quarto do medo. Como dizia Guilherme Arantes (cantor/compositor): “Quando fui ferido, vi tudo mudar, das verdades que eu sabia… só sobraram restos de toda aquela paz que eu tinha…. eu queria tanto estar no escuro do meu quarto… daria tudo por um modo de esquecer… daria tudo por meu mundo e nada mais”.
Pois bem, Ben 10 [da carta], este mundo de hoje, violento de fora e vazio por dentro, assusta pessoas/adolescentes que não têm coragem de enfrentá-lo. Neste mundo adoecedor, cada vez mais os problemas de saúde mental se agravam e o adolescente se vê diante da dificuldade de subjetivar o seu corpo e a sua realidade sexual, tendo dificuldade também de interação e fruição no trabalho e na vida amorosa.
Em síntese, o adolescente se vê diante de dificuldade de simbolizar a sua fase de vida devido à falência da lei paterna (fraqueza das instituições: família/pai, escola e Estado). Em uma sociedade cada vez mais fascista e frouxa em sua definição de leis simbólicas claras, o jovem adolescente tende a sentir-se desamparado e medroso de enfrentá-la, fazendo com que este se refugie no quarto do “medo”. Não é por coincidência que o “autismo” é a estrutura psicológica da vez e estamos vivendo uma epidemia autista (ou será uma histeria de autismo?), onde todos se identificam com condições básicas do autismo: isolamento, amor pelo objeto e dificuldade de relação com vínculos simbólicos com o outro.
A este sujeito adolescente meio autista, empatado de desejar e de fruir, resta sintomatizar. O desenho Ben 10 fala disto: primeiro, no desenho, o Ben 10 precisa de um objeto transicional para ser, se apoiar e virar adulto (coisa que acontece com criança pequena, tipo um paninho ou um ursinho). Segundo, o Omnitrix/relógio o transforma em um alienígena adulto e, assim, ele pode, por alguns momentos, enfrentar os outros adultos alienígenas que o atacam. Veja, Ben 10 do quarto do medo, esta é a metáfora perfeita do mundo vivenciado por 2/3 dos adolescentes virtualizados, não confiantes nas leis do mundo lá fora e que adoecem narcisicamente/autisticamente por não encontrarem apoio simbólico/lei que os sustentem/apoiem na sua passagem para a fase adulta (eles não contam nem com a lei/ética dos homens e nem com o tão desejado/sonhado relógio do Ben 10).

Fica claro isto que estou comentando na carta do Ben 10 do caso clínico aqui em questão; o Ben 10 da carta só se sente confortável no quarto dele e na casa dos pais. Ele não se sente bem diante da chefe (demonstrando questões/problemas de gênero) e tem enorme dificuldade de se adaptar ao trabalho (desejando voltar à dependência dos pais).
Em resumo, Freud diz que o que mais desejamos é aquilo que menos temos condição de ter; assim, pode ser explicado porque o filme Ben 10 é um sucesso estrondoso: ele materializa o sonho infantil inalcançável/fantasioso dos adolescentes de hoje de terem um objeto de transição que facilite a vida deles. Algo ou alguém que os ajudasse a enfrentar seu mundo e a escolher sua própria forma de gozar (um gozo/desejo diferente dos pais) no trabalho e na vida pessoal. Quem deveria ser este objeto de transição (o relógio/Omnitrix) para os adolescentes de hoje seriam os pais e as instituições sociais, mas, como estes estão fracos, temerosos também do mundo, eles fracassam na tarefa de apoio e o bolo edípico/afetuoso atua fazendo os sintomas de isolamento e de medo de viver surgir no adolescente. O Cristian Dunker chamou este fenômeno de “juventude que sofre com ausência de adultos”. Permito-me corrigir Dunker; é juventude que sofre da omissão/fraqueza dos adultos.
Assim, Ben 10 do caso clínico, espero que, com estas elaborações psicanalíticas, você perceba melhor seu caso, sua necessidade de fuga virtual, seu isolamento e o papel que seus pais e a sociedade têm para este seu fenômeno fóbico surgir. Torço para que você, ao entender tudo isso, se posicione com mais coragem e passe a agir, pondo fim à situação de fuga do enfrentamento da realidade que você vive.
Deixo aqui algumas reflexões que podem levar você a ações saudáveis: primeira reflexão, se a falta de um relógio/Omnitrix (pais/instituições com lei) acontecer na sua vida, causando medo e inibição em você, procure compensar isto com um analista.
Segunda, tente elaborar o luto dos seus pais e se abra para o novo, para novas experiências, não esqueça que, querendo ou não, o novo sempre vem.
Terceira, se você sorrir para o mundo, o mundo pode sorrir para você, como dizia Clarice Lispector: “a felicidade de amar e trabalhar só virá se você tiver coragem e se arriscar”. Por fim, ou será por começo? Busque, através das palavras, dar contorno às suas angústias, isto o libertará das amarras dos seus sintomas isolacionistas. Você pode fazer isto escrevendo cartas/diários, fazendo análises de livros, escrevendo poesia, lendo, participando de grupos de leituras sobre adolescência, cantando, dançando, enfim: vivendo. Lembre-se do que o nosso saudoso Belchior [poeta/compositor] dizia/cantava: “… viver é melhor do que sonhar!”.

Então, caro Ben 10 da carta, desejo que você confie que o amor é uma coisa boa e passe a se apoiar e acreditar mais nos seus objetos de transição (relógio/Omnitrix) para a sua vida adulta: pais, amores e instituições sociais.
Boa sorte na sua tarefa de ativar seu relógio Omnitrix, virar adulto e descobrir a dor e a delícia de ser o que é!
Ah, ia esquecendo, na sua próxima carta me fale sobre suas mudanças e as coisas do mundo que te dão sentido de viver e que estão te fazendo feliz…Até lá.



