Entre terapia e a rotina escolar, Adriano Gabriel, de 17 anos, é um menino autista, nível dois de suporte, que vive a paixão pela arte de modo intenso desde a primeira infância. A mãe do jovem, a ex-cabelereira e atual dona de casa, Elisabete de Sousa, de 54 anos, contou que o garoto teve um diagnóstico relativamente tardio, aos 5 anos de idade. Até essa idade, o filho ainda não falava, porém, depois de tanto se incomodar com os rabiscos de Gabriel por todos os móveis e cômodos, Elisabete percebeu que aquela era a maneira genuína como Adriano Gabriel buscava se comunicar, através do desenho.
“Eu demorei muito a entender que, com aqueles rabiscos, ele estava se comunicando, até que um dia ele fez um desenho que deu pra perceber o que ele queria e aí eu fui deixando-o mais livre. Depois desse momento, entendi que, através de um desenho, ele estava falando comigo. Deixei ele mais à vontade.”

O dia a dia e a independência
O Autismo Nível 2 de suporte é uma das classificações do Transtorno do Espectro Autista TEA baseadas na intensidade do suporte necessário. Isso não tem relação com a inteligência ou o valor da pessoa, mas sim com o grau de apoio necessário para que ela possa se comunicar, interagir e lidar com as demandas cotidianas.
Gabriel possui atividades adaptadas na escola onde estuda pela manhã, para que haja a inclusão de suas necessidades, preenchendo o resto do dia com terapia quase todos os dias ao logo da semana. Ele frequenta na Associação dos Amigos dos Autistas -AMA, e o Instituto Rizo e Moviment, no começo da semana e clínicas nos outros dias. No fim da semana, Gabriel passa o máximo de tempo que consegue na escola, no contraturno, realizando atividades de tempo integral.
Por conta de acontecimentos traumáticos no passado, o jovem autista pede para que a mãe permaneça dentro da escola para qualquer eventualidade. Elisabete também contou que não confia em ninguém, além do próprio pai dele, ou avó, para dar suporte a Gabriel, e assumiu que ainda tem certa dificuldade e receio de o deixar mais “independente”.

“Ele já sofreu bullying, eu não tenho coragem de deixar meu filho sozinho em lugar nenhum. O processo de autonomia para os autistas é muito importante, mas acho que a mãe tem que ter segurança”, avaliou.
Para Adriano Gabriel, um momento marcante que recorda cotidianamente é ter se adaptado ao uso de calçados fechados, como os tênis. A mãe do jovem relatou que, até os 13 anos de idade, Gabriel se sentia muito desconfortável em ter que calçá-los, mas com o tempo se acostumou e hoje diz a Elisabete: “Até que não era tão ruim assim, mãe”, destacou a dona de casa.
Desafios na jornada para uma criança autista na escola
Gabriel também carrega em sua memória momentos não muitos divertidos, como quando uma criança lhe derrubou na infância e o fez bater a cabeça, ou o dia em que um colega de classe o machucou com um lápis afiado. Apesar dessas más experiências, Adriano Gabriel se sente muito mais à vontade entre adultos, como nos congressos que é convidado a participar.
O estudante recebe pedidos de seus quadros e, na entrega de uma de suas pinturas no Centro de Teresina, Gabriel usava o crachá de identificação de autista, que ele considera um “escudo” contra a sociedade e os seus preconceitos, e nunca sai de casa sem usá-lo, segundo contou ao Boletim Brio. Segundo a família contou, em um certo dia, uma mulher, observando seu cordão do espectro e conhecendo alguns feitos do jovem, comentou: “Se ele faz isso (a arte), será que ele é doido mesmo?”. Elisabete relatou que se esforçou para não discutir diante do comentário, mas foi contida pelo filho, que disse que seguissem em frente. Em seguida, Gabriel consolou a própria mãe dizendo:

“Mãe, não diga nada quando as pessoas falarem essas bobagens. Eu não me zango, sou autista mesmo! Se ela pensa que autista é doido, que ela fique com pensamento bobo dela, porque eu não me considero doido”, descreveu a mãe.
Com a fala, Elisabete confessa ter se surpreendido com a atitude do filho.
A transição de acordo com a especialista
A psicóloga clínica especialista em tratamento infantojuvenil, Monique Melo, contou em entrevista ao Boletim Brio que a adolescência por si só é uma fase de muitas mudanças hormonais, emocionais e físicas. Porém, quando se trata de uma pessoa que se encaixa dentro do espectro autista, tudo isso pode vir a ser intensificado, pois acontecem drásticas mudanças não apenas em como lidar com os próprios sentimentos e emoções, mas ainda em como se relacionar com o próximo.
“Desenvolvimento cognitivo e emocional: A forma de pensar se torna mais abstrata e crítica. Há um aumento na intensidade das emoções, busca por identidade pessoal e senso de pertencimento. Desenvolvimento do pensamento autônomo, muitas vezes acompanhado de oscilações de humor. Mudanças sociais e relacionais: O grupo de amigos passa a ter um papel central na vida do jovem. Há uma busca maior por independência em relação à família e o surgimento do interesse por novos papéis sociais e afetivos“, explicou.
A especialista disse ainda que a crise existencial sobre a própria identidade nesse período da vida pode ser mais complicada, e as dúvidas e a ansiedade pode gerar um medo em quem já possui, naturalmente, dificuldade de lidar com imprevistos.

“Busca por identidade e rigidez cognitiva: O autismo frequentemente envolve uma preferência por rotinas e previsibilidade. A adolescência, por sua vez, exige flexibilidade, adaptação a novas regras e a construção de uma identidade própria num momento em que o jovem ainda está descobrindo quem é.”
Monique esclarece que alguns hábitos podem ajudar os jovens autistas a enfrentarem essa fase com um pouco mais de conforto e calma, com planejamento e diálogo.
“Em vez de impor decisões sociais complexas, ajude o jovem a praticar a tomada de decisões em pequenos passos, validando seus interesses intensos (que muitas vezes funcionam como uma âncora emocional e social importante).”
A psicóloga concluiu dizendo que o autorreconhecimento orgulhoso do adolescente como uma pessoa autista é primordial, e hiperfocos saudáveis, como a arte no caso de Gabriel, podem fazer uma diferença enorme no processo de adaptação, aprendizado e nas relações interpessoais.
“Na adolescência, a pressão para mascarar comportamentos (esconder traços do autismo para agradar os outros) gera um esgotamento mental enorme. Tornar esse processo mais leve envolve validar a individualidade e criar pontes seguras de conexão.Conectar através de interesses hiper focados: ver outras pessoas autistas (sejam criadores de conteúdo, cientistas, artistas ou escritores) falando abertamente sobre suas experiências ajuda o adolescente a normalizar quem ele é. Saber que existem outras mentes que funcionam de forma parecida reduz a sensação de isolamento e estranhamento.”
Essa realidade é demostrada de maneira fictícia na série americana de 2017, Atypical, que narra a realidade de Sam Gardner, um jovem autista que decide conquistar sua autonomia e dar o primeiro passo rumo à independência procurando uma namorada.

Na ficção ou fora dela, cada pessoa possui sua individualidade, gostos, desejos e paixões independentemente do espectro ou história de vida. A autenticidade nasce livremente, de maneira completamente natural, e é preciso deixar essa autenticidade se expressar da maneira que quiser. Foi um pouco do que podemos aprender com Gabriel: é na arte e nos detalhes da jornada que nos encontramos.
Projetos que auxiliam Gabriel
Na matéria foi narrado algumas organizações que ajudam Adriano Gabriel em seu tratamento terapêutico, como a Associação de Amigos dos Autistas – AMA e o Instituto Rizo Movement. O Boletim Brio deixa a disposição algumas informações, como contato e redes sociais destes citados anteriormente e outros orgãos gratuitos, que dão suporte terapêutico a crianças, jovens e adultos autistas.
Veja a lista
1. Associação de Amigos dos Autistas – AMA
- Contato: (86) 9 9520-9452
- Instagram: @amateresina

2. Instituto Rizo Moviment
- Contato: (86) 9 9495-5665
- Instagram: @institutorizomovement
3. Centro Especializado de Atendimento às Pessoas com Transtorno do Espectro Autista – CETEA
- Contato: (86) 3200-5296

4. Associação Prismas
- Contato: (86) 9 8182-2613
- Instagram: @pismas.associacao

5. Serviço de Centro de Integração e Inclusão do Autismo e outros Transtornos – Ser Cria
- Contato: (86) 9 9544-1241
- Instagram: @ser.criiaoficial


