A trajetória do piauiense Joaquim Bezerra, presidente do Conselho Federal de Contabilidade; louros e desafios do Centro de Eventos João Claudino Fernandes; Maria Teresa Felinto partilha visão empresarial e mais

Há uma música tocando ao fundo quando o presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Joaquim Bezerra, recebe alguém para trabalhar. Instrumental, baixa, um detalhe na cena. E há, também, quase sempre, um presente à mão: uma lembrança do Piauí, escolhida para quem chega, como um pedaço de casa que merece ser compartilhado com o mundo.

Antes de assumir a presidência do Conselho Federal de Contabilidade, Bezerra foi um jovem estudante de Contabilidade no Centro de Ensino Unificado de Teresina, o CEUT, hoje extinto. Era meados dos anos 2000, e foi ali, no movimento estudantil, que ele teve sua primeira escola de diálogo e negociação. Ninguém nasce presidente de conselho. Aprende-se primeiro a ouvir, a ceder, a convencer, bem antes de qualquer eleição valer a pena.

A trajetória seguiu por diferentes espaços de liderança até desembocar, em 5 de janeiro de 2026, na eleição unânime para o comando do CFC, mandato que vai até 2029. Bezerra assumiu prometendo aproximar a contabilidade das decisões que movem a economia, as empresas, o poder público e a sociedade. 

Nesta entrevista exclusiva ao Boletim Brio, ele fala sobre os desafios da contabilidade brasileira diante da inteligência artificial, da reforma tributária e das transformações econômicas. Também revisita as raízes piauienses, a importância da fé, a influência da família e a convivência com o filho André, diagnosticado com autismo, experiência que, segundo ele, mudou profundamente sua maneira de enxergar o funcionamento das instituições.

Boletim Brio: O senhor nasceu em Teresina e construiu uma carreira nacional. Que valores, experiências e tomadas de decisão balizaram o caminho rumo à presidência do CFC?

Joaquim Bezerra: Nascer no Piauí teve uma influência muito grande na minha formação. Aprendi cedo o valor do trabalho, da família, das relações e, sobretudo, que nossas origens não determinam até onde podemos chegar, mas dizem muito sobre a maneira como escolhemos fazer essa caminhada.

Minha trajetória nunca foi construída a partir de um projeto de ocupar cargos. Foi sendo construída a partir de escolhas, muitas delas difíceis, e da disposição de assumir responsabilidades quando elas se apresentavam. Desde criança, sempre foi assim. Sou o caçula da família, e meus pais, tios e avós sempre me atribuíram responsabilidades que me forjaram para assumi-las.

Ao longo do tempo, três valores foram se tornando muito importantes para mim: propósito, preparação e capacidade de construir coletivamente. Sempre acreditei que ninguém realiza algo verdadeiramente relevante sozinho. Chegou um momento em que entendi que não devemos ficar esperando oportunidades na vida, mas estar preparados quando elas surgirem.

Chegar à presidência do Conselho Federal de Contabilidade, eleito por unanimidade, foi uma grande honra, mas também aumentou muito o senso de responsabilidade. Representar uma profissão com mais de meio milhão de profissionais e mais de 110 mil empresas de contabilidade, presente na vida de milhões de brasileiros, exige compreender que liderança não é um lugar de poder. É um lugar de serviço, responsabilidade e construção de legado.

Boletim Brio: Como o movimento estudantil contribuiu para formar o seu estilo de liderança?

Joaquim Bezerra: Foi uma verdadeira escola de liderança. Iniciei a vida acadêmica fundando o Centro Acadêmico, participando da construção do Diretório Central dos Estudantes e, depois, ajudando na articulação do movimento estudantil de Ciências Contábeis em diferentes estados do Nordeste e do Brasil. Tudo isso durante a faculdade, o que naturalmente foi um instrumento de inserção em meio a pessoas com opiniões, interesses e visões de mundo muito diferentes.

Ali aprendi algo que carrego até hoje: liderar não é cercar-se de pessoas que pensam como você. É ser capaz de construir convergências entre pessoas que pensam diferente. Aprendi a ouvir, negociar, argumentar, recuar quando necessário e, principalmente, compreender que uma boa liderança não precisa vencer todas as discussões. Precisa fazer o grupo avançar.

Talvez venha daquela época uma característica que permanece muito presente na minha gestão: gosto de ouvir diferentes perspectivas antes de tomar decisões, mas, depois que uma decisão precisa ser tomada, entendo que cabe ao líder assumir a responsabilidade por ela. Isso também aprendi muito com meu pai.

Boletim Brio: Qual é hoje o maior desafio da contabilidade brasileira? E o que o CFC tem feito?

Joaquim Bezerra: Acredito que nosso maior desafio seja reposicionar a contabilidade para o século XXI. Durante muito tempo, a sociedade enxergou o contador principalmente como alguém ligado ao cumprimento de obrigações, ao fisco e ao governo. Essa realidade mudou profundamente.

Hoje, dados, tecnologia e inteligência artificial automatizam atividades que antes consumiam grande parte do trabalho operacional. Ao mesmo tempo, aumentou a necessidade de profissionais capazes de interpretar informações, gerar inteligência, apoiar decisões e conferir confiança aos ambientes econômico e institucional. É necessária uma atuação estratégica diante do mercado, das tomadas de decisão, do ambiente de negócios e da garantia da própria segurança jurídica do país.

Por isso, tenho defendido que a contabilidade é a linguagem da confiança. A economia precisa de informações confiáveis para funcionar. Os investidores precisam confiar nos números; os governos precisam de informações de qualidade para formular políticas públicas; as empresas precisam delas para decidir; e a sociedade precisa de transparência. Tudo isso advém da contabilidade. A contabilidade está em tudo.

O CFC está trabalhando justamente nesse reposicionamento: transformação digital, educação profissional, melhoria regulatória, aproximação com universidades, fortalecimento da governança, sustentabilidade e maior diálogo com os Poderes e com os agentes econômicos, políticos e sociais. Não queremos apenas preparar o contador para as mudanças. Queremos ajudar o país em seu desenvolvimento.

Boletim Brio: Como avalia a relação entre o governo federal e a classe contábil?

Joaquim Bezerra: Vejo uma relação de diálogo institucional, que cresce a cada momento e precisa ser permanentemente fortalecida. A classe contábil está na ponta de praticamente todas as grandes transformações econômicas e tributárias do país.

Basta observar os movimentos recentes com o Tesouro Nacional, quando se trata de contabilidade pública, e com a Receita Federal, quando se trata da interoperabilidade das operações econômicas, fiscais, financeiras e contábeis.

A Reforma Tributária é talvez o exemplo mais evidente. Uma reforma dessa dimensão não se materializa apenas com leis e sistemas. Ela chega às empresas e aos cidadãos por meio de milhares de profissionais da contabilidade.

Temos buscado manter uma interlocução técnica e republicana com o governo federal, especialmente com os órgãos envolvidos nas agendas tributária, econômica e de ambiente de negócios. O CFC não deve atuar a partir de posições político-partidárias. Nosso compromisso é institucional: contribuir tecnicamente para a simplificação, a segurança jurídica, a transparência e o desenvolvimento econômico.

Quando governo, setor produtivo e profissões técnicas conseguem dialogar, quem ganha é o Brasil.

Boletim Brio: O Piauí dá suporte à classe contábil? Que parceria o CFC busca com o governo estadual?

Joaquim Bezerra: O Piauí tem avançado muito. Existem muitos expoentes piauienses que sempre estiveram à frente das contribuições para a ciência e a técnica contábil brasileira.

O Piauí é um estado que se abre cada vez mais para o desenvolvimento econômico e sustentável, sendo exemplo em várias frentes para o Brasil: saúde, segurança, educação, agronegócio, tecnologia e redução do endividamento. Tudo isso abre espaço para construirmos uma relação institucional cada vez mais forte entre o poder público e a classe contábil.

O profissional da contabilidade é um parceiro natural do desenvolvimento econômico. Ele está ao lado do pequeno empreendedor, das empresas, das organizações sociais e também do próprio Estado. Portanto, aproximar governo e profissão significa melhorar o ambiente de negócios.

Nossa disposição é construir pontes entre governo e contabilidade em todo o Brasil. No Piauí, não é diferente. O presidente Ricjardeson, do CRC do Piauí, tem acompanhado a agenda nacional, que é replicada localmente em ações como debates sobre simplificação, transformação digital, educação profissional, empreendedorismo, melhoria do ambiente regulatório, desenvolvimento econômico e fortalecimento das relações institucionais.

Tenho um carinho especial pelo meu estado do Piauí. É minha origem. Todos no Brasil sabem que luto de forma responsável pelos 27 estados para promover equidade, diante das divergências geopolíticas que temos no país. Como presidente do CFC, devo olhar para os 27 estados com a mesma atenção. Como piauiense, naturalmente fico muito feliz quando posso contribuir para que meu estado avance. E é o que temos feito incansavelmente.

Boletim Brio: O diagnóstico de autismo de André mudou sua forma de gerir?

Joaquim Bezerra: A experiência de ser pai já muda a forma de gerir a vida. Ser pai de uma criança neurodivergente como o André, e contar também com a presença do Joaquim Neto nessa experiência paternal, transformou profundamente minha maneira de enxergar as pessoas. Quando convivemos de perto com o autismo, começamos a perceber que muitas vezes construímos organizações, escolas e políticas imaginando que todas as pessoas aprendem, se comunicam e percebem o mundo da mesma maneira. E não percebem.

André me ensinou que inclusão não é apenas permitir que alguém esteja presente. É criar condições para que essa pessoa possa desenvolver suas potencialidades e participar verdadeiramente. Isso influenciou também minha forma de liderar. Passei a observar ainda mais as diferenças individuais, os talentos que nem sempre aparecem pelos critérios tradicionais e a necessidade de instituições capazes de acolher diferentes maneiras de pensar e contribuir.

Hoje, quando analiso uma política institucional, uma das perguntas que procuro fazer é: quem pode estar ficando de fora? Inclusão não pode ser apenas discurso ou cumprimento de norma. Precisa fazer parte da cultura das organizações. Em todos os meus debates, destaco o quanto o aprendizado com o tratamento do André é fundamental para explicar minha forma de agir e de tomar decisões. Também faço questão de reconhecer o papel importante de Ana Cláudia, minha esposa, que é contadora e psicóloga, na construção dessa forma resiliente de ver o mundo.

Boletim Brio: Quais usos de IA considera legítimos e prioritários? Onde a decisão humana deve permanecer?

Joaquim Bezerra: A inteligência artificial representa uma oportunidade extraordinária para a profissão contábil e para o próprio Sistema CFC/CRCs. Estamos investindo muito para transformar a profissão em um ambiente tecnológico e, sobretudo, de consciência para o novo ciclo, com direcionamentos sobre o letramento dos profissionais.

É indiscutível que vamos utilizá-la para analisar grandes volumes de dados, automatizar atividades repetitivas, melhorar serviços aos profissionais, identificar riscos, apoiar processos de fiscalização e ampliar nossa capacidade de produzir conhecimento e inteligência.

Mas existe uma fronteira que considero muito clara: a tecnologia pode apoiar decisões; a responsabilidade não pode ser terceirizada para um algoritmo. O juízo humano, a fé pública e a confiança jamais serão substituídos. E tudo isso estará respaldado na ciência e na técnica. Sempre. Toda vez que houver julgamento profissional, impacto relevante sobre direitos, fiscalização, sanções, interpretação técnica sensível ou decisões que afetem pessoas, a supervisão humana deve ser obrigatória.

Quanto mais poderosa se torna a tecnologia, maior precisa ser nossa preocupação com ética, transparência, proteção de dados e responsabilização. O futuro que me interessa não é aquele em que a inteligência artificial substitui o profissional da contabilidade. É aquele em que ela liberta o profissional das tarefas de menor valor para que ele possa exercer aquilo que a máquina não entrega sozinha: julgamento, responsabilidade, confiança e consciência ética.

Boletim Brio: Existe algum livro, autor ou obra que tenha lhe marcado?

Joaquim Bezerra: Vou dar duas indicações. Não posso, diante dessa pergunta, deixar de dizer que a Bíblia é, sem dúvida, a obra que mais influencia minha vida. Não apenas pela dimensão da fé, mas pelos ensinamentos sobre liderança, propósito, coragem, escolhas e responsabilidade.

Tenho uma relação especial com algumas histórias bíblicas. A de Neemias, por exemplo, fala muito sobre liderança: alguém que recebe um chamado, compreende uma missão, reúne pessoas e reconstrói aquilo que parecia impossível.

Também quero destacar o livro Maestria, de Robert Greene. A obra ensina que devemos perseguir nosso potencial não como um ponto de partida determinado pelo talento, mas como uma construção diária feita de propósito, aprendizado, disciplina e coragem para evoluir, comprometendo-nos permanentemente com a excelência e com o desenvolvimento daquilo que fomos chamados a fazer.

Boletim Brio: Que tipo de música costuma ouvir no dia a dia?

Joaquim Bezerra: Sou bastante eclético. A música acompanha momentos diferentes da minha vida: gosto da música brasileira, das canções nordestinas e também de músicas que me remetem à espiritualidade e à família.

Tenho uma relação afetiva especial com a música do Nordeste. Às vezes, uma canção consegue nos transportar imediatamente para nossas origens, para pessoas e momentos que fizeram parte da nossa história. Por mais que a vida tenha me levado para tantos lugares, gosto dessas coisas que continuam me lembrando de onde vim. Também adoro trabalhar e receber as pessoas ao som de músicas clássicas e instrumentais. Isso acalma. Gosto de fazer meus discursos e pronunciamentos com fundo musical para me inspirar e falar com o coração. Minha relação com a música é conexão.

Boletim Brio: Qual é o lugar do Piauí que mais gosta de visitar e por quê?

Joaquim Bezerra: O Piauí é terra de muitas riquezas, de norte a sul. Nosso litoral é uma beleza rara, e o sul é um patrimônio único.

Poderia citar muitos lugares extraordinários do nosso estado, mas, sem dúvida alguma, Teresina tem para mim uma dimensão que não é turística, é afetiva. Hoje moro em São Paulo e divido meu tempo com Brasília, além de viajar pelo Brasil e pelo mundo a serviço da contabilidade brasileira. Mas é em Teresina que estão minha mãe, meus irmãos, minha sogra, meus cunhados, sobrinhos, tios e primos. É em Teresina que recarrego minhas energias vitais.

É onde estão minhas raízes, minhas referências familiares, minhas primeiras amizades e muitas das experiências que ajudaram a formar quem sou. Sempre que volto, existe um sentimento de reencontro. Tenho muito orgulho de ter construído uma trajetória nacional levando comigo minha identidade piauiense. Por onde passo, quanto mais lugares conheço e quanto mais responsabilidades assumo, mais compreendo o valor das minhas origens. E sempre levo um mimo do Piauí para presentear as pessoas.

Boletim Brio: Qual é o papel da fé na sua vida e nas decisões?

Joaquim Bezerra: A fé ocupa um lugar central na minha vida. Ela me dá direção, mas também me dá perspectiva. Existem momentos em que fazemos tudo aquilo que está ao nosso alcance: estudamos, planejamos, trabalhamos, ouvimos pessoas e, ainda assim, precisamos reconhecer que não controlamos todas as circunstâncias.

Minha fé me ajuda especialmente nesses momentos. Procuro pedir a Deus menos que retire os desafios do caminho e mais que me dê sabedoria para atravessá-los e compreender o que eles têm a me ensinar. Também acredito muito na ideia de chamado. Para mim, posições, oportunidades e talentos trazem consigo uma responsabilidade. Se recebemos condições de influenciar pessoas ou instituições, precisamos perguntar para que estamos usando essa influência e por que somos nós que estamos aqui neste momento.

No fim, talvez sejam essas as perguntas que mais orientam minhas decisões: não apenas o que posso representar, mas que contribuição posso deixar. Quero que os lugares pelos quais eu passar e as pessoas com quem conviver estejam, de alguma maneira, melhores depois desse encontro. Esse é o meu propósito de vida: contribuir para a evolução das pessoas. É assim que procuro conciliar fé, liderança e propósito.

Centro de Eventos João Claudino Fernandes: inauguração e desafios 

A inauguração do Centro de Eventos João Claudino Fernandes aconteceu nesta terça-feira (01/09) no Teresina Shopping. O projeto nasce como um polo multiuso, com mais de 3.500 m² de área locável, oito salas modulares, terraço e área externa de convivência, com capacidade anunciada para até 2.500 pessoas.

A estratégia também representa a primeira grande intervenção estrutural no shopping desde a expansão de 2014, sinalizando um novo ciclo de investimento do empreendimento. O mérito da iniciativa está em vender a ideia de que a capital piauiense pode disputar eventos maiores, atrair visitantes e movimentar uma cadeia que inclui hotelaria, gastronomia, transporte, comércio, serviços e entretenimento. 

O Teresina Shopping esbarra nos últimos anos em questões sobre reinvenção. É inegável que mudanças positivas foram feitas. A percepção pública, todavia, ainda aponta para desafios em nomear esta nova fase. 

Onde começa a parte mais importante e mais difícil da comunicação de uma marca? 

Seu João Claudino, empresário notável e com legado inesquecível, que dá nome ao local era mestre em se comunicar e apoiar ideias marcantes na comunicação empresarial. Em seu tempo, fez história e é lembrado por gerações de pessoas em ações de comunicação como a vinda da esquadrilha da fumaça e distribuição das bolas amarelas do Armazém Paraíba. O futuro é o que se acompanha agora.

Abrir um centro de eventos é criar um lugar físico. Fazer esse lugar ganhar relevância é criar significado público. São movimentos diferentes. O primeiro depende de obra, operação e venda. O segundo depende de escuta, repertório, presença e capacidade de ser ouvido pelo público.

Um perigo comum e ignorado é falar apenas com quem já concorda, já acompanha, já compra e já está sentado dentro do mesmo círculo. A comunicação passa a ser eficiente para a própria bolha, mas pouco porosa ao mundo. A marca se reconhece no espelho, celebra seus próprios códigos e confunde aprovação interna com conexão. Já o público consumidor, que assiste de fora, este está vidrado em outras conversas.

O Centro de Eventos João Claudino Fernandes começa bem ao oferecer estrutura, integração e ambição para Teresina. O próximo passo será mostrar que as portas não servirão apenas para receber quem já conhece o caminho, mas para trazer novos públicos, novas perguntas e novas formas de participação.

A trajetória empreendedora de Maria Teresa Felinto, sócia da Paradisco, Vito Caffé, Vito Fogo e Noha 

“Pessoas felizes, bons resultados” é uma das premissas que traduzem o modelo de gestão que a empresária piauiense, Maria Teresa Felinto, acredita e diz praticar. À frente de um grupo que reúne marcas de diferentes segmentos, ela construiu sua trajetória a partir da experiência familiar no varejo, ampliou sua visão ao trabalhar em outras empresas e, ao longo dos últimos dez anos, ajudou a consolidar um ecossistema que transita entre moda, gastronomia e entretenimento, ao lado do sócio e irmão, Iran Felinto. 

Essa trajetória ganhou novos contornos com a maternidade, que a fez repensar prioridades, administrar o tempo e compreender que não é possível estar presente em todos os lugares o tempo inteiro. Apaixonada por gente e por gestão, Maria Teresa fala nesta entrevista à Coluna Ápice sobre os desafios de administrar negócios em um cenário de constantes mudanças e sobre as oportunidades que ainda podem ser melhor exploradas em Teresina. Para ela, empreender só faz sentido quando existe paixão e vontade de construir algo que vá além do próprio negócio. 

Boletim Brio: Sua trajetória reúne experiências em varejo, gastronomia e gestão de negócios. Qual foi o ponto de partida dessa caminhada e quais decisões foram determinantes para transformar suas primeiras experiências em uma atuação empresarial mais ampla?

Maria Teresa Felinto: Minha mãe teve por 30 anos um loja de roupas de Teresina, bem conhecida, e a minha escola foi lá dentro. Eu fiquei nove anos trabalhando lá dentro, até que, em 2015, a gente decidiu fechar a operação, e eu fui trabalhar dois anos nas Lojas Noroeste. Foi lá que a minha visão se ampliou. Eu deixei de ser filha da dona, dona de uma empresa, para trabalhar para os outros. E o gestor de lá era uma pessoa excepcional, humana, de uma gestão muito, muito boa. Então, lá eu aprendi mais ainda e agreguei mais ainda o meu conhecimento de gestão.

Em seguida, ele veio com a oportunidade de a gente abrir a loja Noha. Tudo o que eu fiz desde o começo dessa trajetória do nosso grupo foi junto com o Iran Felinto, meu sócio. E aí surgiu essa oportunidade de abrir a Noha. Juntos, decidimos encarar esse desafio. Em seguida, veio o Vito Café, com uma oportunidade de o Vito Café ficar ao lado da Noha, no Shopping. Uma oportunidade que apareceu e a gente desenvolveu do zero um café. Um café que atendesse todo o público do shopping, em todos os horários, de dez às dez.

Então, a gente desenvolveu ali um cardápio que atendesse quem quer comer uma tapioca, quem quer comer um sanduíche gostoso, um baguete, um croissant, como também quem quer comer um risoto, quem quer comer um picadinho. Então, um cardápio bem abrangente. A gente teve que aprender toda essa gestão de restaurante para conseguir maturar o Vito Café, que hoje está com cinco anos de história.

E o Vito Fogo começou, na verdade, porque a gente queria botar o café na rua. E aí, quando a gente encontrou o ponto, a gente entendeu que precisava de algo mais com pegada de carne, mais com pegada de noite, com música ao vivo. E a gente montou essa proposta também e inauguramos o Vito Fogo. E, junto com tudo isso, o grupo também conta com as empresas da Paradisco. O grupo Paradisco, hoje, ele comporta esse ecossistema de entretenimento, do qual a gente trabalha desde a loja de sapato, desde o universo que faz festa, os restaurantes, o café. Vito, Noha e Hub Paradisco atuam em segmentos diferentes, mas dependem de uma mesma capacidade de compreender pessoas, construir experiência e formar equipes. 

Boletim Brio: Que princípios de gestão conectam esses negócios e como você traduz a identidade de cada marca para o consumidor piauiense?

Maria Teresa Felinto: A gente trabalha algo muito forte na nossa cultura: uma gestão humanizada, mas também de olho nos resultados. A gente tem alguns princípios dos quais não abre mão: a honestidade, o olho do dono. E a nossa gestão, para cada empresa, é tudo comigo e com o Iran. Os dois sócios, os dois diretores que estão à frente das empresas. Um cuida de uma parte e o outro cuida de outras funções, bem definidas dentro da empresa.

E eu acho que, para a gente conseguir executar isso com maestria, vem da confiança e do desenvolvimento de pessoas. Hoje, nosso grupo tem o foco em desenvolver pessoas para que elas assumam as lideranças, estejam no lugar certo, sejam nossos olhos dentro da empresa, para a gente conseguir evoluir.

Então, a gente tem um trabalho de RH bacana. A gente tem um psicólogo dentro do grupo já há três anos. E a gente está sempre de olho nas tendências, para entender o que o nosso público quer. A gente não muda o estilo do restaurante por uma modinha que está acontecendo, porque a gente tem o nosso posicionamento muito forte, muito marcante, e também o nosso objetivo e onde a gente está e onde a gente quer chegar. Então, a gente tem esse posicionamento, essa base forte. Mas a gestão é humanizada e focada em resultados. Pessoas felizes, resultados felizes. Então, a gente sempre está de olho nisso dentro da empresa.

Vito, Noha e Hub Paradisco são segmentos diferentes, mas as empresas têm o nosso olhar. O que a gente espera de cada empresa é definido pela gente. Mas hoje eu entendo que o nosso foco é realmente na experiência do cliente. Só você vê que a gente trabalha com festas, que a gente proporciona a melhor experiência para o consumidor que vai estar lá. O Vito Café e o Vito Fogo também. A gente se preocupa desde o estacionamento do carro do cliente, a entrada, o sentar, a cadeira, como esse prato vai chegar lá, como o garçom vai se comportar ali dentro, as redes sociais, quem está representando a marca.

Boletim Brio: Como você avalia o atual cenário empreendedor do estado e quais oportunidades ainda estão subaproveitadas por empresas locais?

Maria Teresa Felinto: Estava conversando sobre isso hoje com a minha família, sobre a política e tudo, e as preocupações que a gente tem, de quem entra, de quem sai. E uma coisa que a gente tem certeza é que a gente se adapta. A gente sobrevive. E quem sobrevive são empresas que se preparam para isso, que se planejam para isso, que são organizadas.

Então, a gente sempre está procurando se organizar, crescer, melhorar, se formar, estudar, fazer curso, contratar consultorias. Nós ainda somos pequenos. Nosso grupo todo tem dez anos de história. Então, nós não somos pequenos diante de alguns outros grupos, mas a gente tem a humildade de saber que não sabemos de tudo, mas também a coragem para reconhecer e ir atrás de informação, de ajuda, de crescer, de melhorar, de organizar a casa, de melhorar os processos. Eu acho que isso faz o diferencial do empreendedor, que, independente de político A, B ou C, a gente tem que continuar. A nossa missão continua. Então, a gente tem que se preparar para qualquer que seja o cenário que vem aí pela frente. A gente tem que estar preparado. 

E, sobre as oportunidades que são subaproveitadas por empresas locais, olha, eu acho que tem muita coisa ainda que dá para melhorar em Teresina. Lazer, por exemplo. A gente vive aqui de turismo gastronômico. Então, para você ter ideia, tem uma infinidade de restaurantes aqui, mas a gente não tem tantos distribuidores que possam fornecer para a gente os insumos.

Por exemplo, uma semana a gente acha um insumo; na semana seguinte, aquele insumo já não tem mais. Então, a gente sempre tem que estar comprando de fora, de distribuidores de fora, fora os preços que chegam aqui para a gente bem mais caros por conta da tributação daqui, que é um pouco mais cara. Então, assim, ter a oportunidade, por exemplo, de um mercado aí para quem vai fornecer para os restaurantes esses insumos ainda é um pouco escasso.

Mas eu acho que o lazer, o lazer com a família, o lazer com os amigos, que não seja só o restaurante. Eu acho que parques, lugares a céu aberto… É um pouco complicado para cá, mas é o que eu sinto falta. Final de semana, vou fazer o quê com a minha família? Ou a gente vai ao zoológico, ou é shopping, ou é algum restaurante. Então, eu sinto falta de uma coisa mais diferente.Às vezes, até a gente valorizar a própria cultura local. Museu, enfim. Eu acho que ainda isso aí é subaproveitado aqui na cidade.

Boletim Brio: Como a maternidade transformou sua maneira de enxergar o tempo, as prioridades e as escolhas profissionais?

Maria Teresa Felinto: Olha, a maternidade foi um grande desafio em termos de conseguir conciliar isso com as empresas, porque, quando eu engravidei, a gente estava no começo dessa história. A Noha tinha, se não me engano, três anos, e a gente estava no projeto do Vito Café.

A gente vinha aí no cenário pós-pandemia e estava no projeto de abrir o Vito Café. Então, assim, você tem ideia? A gente inaugurou o café em 21 de junho, e eu tive a minha filha em 29 de abril. Então, assim, após 15 dias, eu já estava lá, voltando para esse projeto da inauguração do café.

E, assim, é um grande desafio para a mulher hoje. Porque você tem que ser filha, você tem que ser mãe, você tem que ser esposa, você tem que trabalhar. E você quer, ao mesmo tempo, estar presente em todos aqueles lugares. Então, assim, eu entendo que vai ter um dia em que eu não vou conseguir ser sempre, sempre, trabalho, porque vou ter que estar focada em casa, vou ter que estar focada na filha ou na esposa. E hoje eu já me perdoo por isso. Já me perdoo. Já começo minha semana sabendo como vão ser meus métodos, o que eu vou conseguir realizar.

Mas, assim, de fato, durante a semana, de segunda a sexta, o meu foco é mais trabalho, é mais produtividade, para eu conseguir, no final de semana, curtir a minha família, a minha casa. Até quando eu vou para as empresas no final de semana, eu vou lá para o Vito Fogo, por exemplo, almoçar, feijoada e samba. Eu vou sentar na mesa, vou curtir, vou chamar amigos. Então, assim, para eu conseguir hoje curtir mais o final de semana, sabendo que tem pessoas que estão fazendo a empresa continuar mesmo sem a minha presença.

Mas a maternidade, com certeza, ela é desafiadora. Ela faz a gente selecionar, selecionar tudo. Com o que você vai gastar seu tempo. Porque o tempo que você tem que ser dedicado para o seu filho e criar um filho para o mundo é muito desafiador. E, ao mesmo tempo, hoje, por exemplo, eu toco quatro empresas. Então, como eu até brinco, assim, são meus quatro filhos. Quatro filhos com a minha filha são cinco. Então, cinco filhos para tomar de conta, porque recentemente a gente abriu também a Noha no Teresina Shopping, e sou eu que toco também.

Boletim Brio: Você se apresenta como uma gestora apaixonada por gente. De onde vem esse olhar para as relações e para o cuidado com as pessoas?

Maria Teresa Felinto: Olha, eu sou realmente apaixonada pela gestão, apaixonada por gente, por entender gente, cuidar de gente e desenvolver essas pessoas, sabe?

Eu tenho muitos cases de sucesso na empresa, de pessoas que a gente pegou do zero e transformou. A gente viu a trajetória delas dentro da empresa: elas crescerem, conquistarem as coisas delas, comprarem o carro, a moto ou a casa, conseguirem fazer uma viagem com a família. Isso me enche de orgulho e me dá aquele gás para continuar, saber que tem tantas pessoas ali que dependem da gente e que eu quero vê-las crescerem, se desenvolverem e terem oportunidades melhores.

Porque, assim, eu sinceramente acho que você não vai empreender se não gostar de pessoas. É difícil você ter resultado, dar certo, se for empreender sem gostar de se relacionar com pessoas. E eu falo isso tanto do cuidado com as pessoas internamente, com a sua equipe, quanto de fazer networking, de se relacionar com as pessoas ao redor. Porque, senão, seu negócio também não vai dar certo se você não for uma pessoa que faça networking. 

Quem não é visto não é lembrado. Então, assim, muitas vezes eu me obrigo a rodar em três salões, porque eu tenho três clientes que me prestigiam. Então, em uma semana eu estou em um, no final de semana eu estou no outro, e eu estou sempre sendo vista e, consequentemente, sendo lembrada dos meus negócios.

Quantas vezes eu já passei por pessoas assim: “Meu Deus do céu, está aí o Vito Fogo! Vou fazer meu aniversário lá”. “Maria, como é que eu faço?”. Porque me viu em um salão, porque me encontrou, sabe?

Então, essa paixão é realmente dos dois lados. É tanto com a minha equipe, que eu realmente gosto e gosto de cuidar, gosto de saber um pouco ali de cada um. No começo, óbvio, eu conseguia acompanhar muito mais de perto. À medida que eu vi que eu não tinha mais condição de acompanhar de perto cada um da minha equipe, eu coloquei a psicóloga para a gente estender esse trabalho e eles não se sentirem tão desamparados.

Mas eu sempre digo: tem que cuidar de gente. Pessoas felizes, bons resultados. Pessoas infelizes não vão te dar o resultado que você precisa. Então, às vezes, você olhar para aquela pessoa, escutar um pouco as lamentações, as reclamações, que às vezes não têm nada a ver com o trabalho. Às vezes, não; a maioria das vezes. Hoje eu aprendi, entendi que não tem nada a ver com o trabalho. A maioria vem de casa. Escutam esses problemas e só precisam ser escutados. E aí ele vai ali, melhora e vai te dar um bom resultado. Então, eu realmente sou apaixonada por gente. É o meu ponto alto da gestão. O que eu mais gosto de fazer é essa gestão de pessoas.

Boletim Brio: Que livro você recomenda para uma mulher que está começando a empreender e por quê?

Maria Teresa Felinto: Então, quando você fala de um livro que eu recomendo para uma mulher que está começando a empreender, depende muito também do nível de maturidade dessa mulher em relação ao que ela conhece ou já está vivendo.

Mas eu acho que, principalmente pela sociedade em que a gente vive hoje, em que a mulher nasce muito com aquela ideia de ter que dar conta de tudo, de ter que servir, de ter que agradar, eu iria na linha de A Coragem de Não Agradar e A Coragem de Ser Imperfeito, da Brené Brown, porque a gente não vai conseguir agradar a todos.

E, quando a gente tenta, dentro da empresa, não ter conflito com um funcionário, agradar, a gente tenta não ser vista como uma pessoa chata, uma pessoa ruim, e não consegue realmente ter o controle ali do funcionário dentro da empresa.

Então, isso é muito importante: a mulher saber dizer não, saber se posicionar.  Então, acho que tem várias coisas que abrangem isso aí. Tem também Essencialismo. Eu acho que livros que ajudem a construir como ela vai construir essa liderança dentro dela, dentro da empresa, vão ajudá-la a mudar a partir dessas informações.

E, para ela conseguir isso, ela tem que ser segura de si, segura do que ela quer, do porquê de estar ali para empreender, do que ela quer ganhar com isso, como vai ser o empreendimento dela. E, o máximo que ela puder estudar e se informar sobre gestão, processos, finanças, delegação… Então, eu acho que são livros que falam sobre isso.

Dale Carnegie tem livros básicos de gestão:

  • Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas — clássico, supernecessário.
  • O Monge e o Executivo — é um livro básico de gestão. Fala sobre a gestão pelo exemplo, e não pela imposição.
  • A Coragem de Ser Imperfeito — Brené Brown.
  • O Poder do Hábito — Charles Duhigg.

Manual da Moda 

A designer de joias e empresária Andrea Murad foi muito elogiada nas redes sociais ao posar em um vestido longo, com recorte lateral e ombro único. À coluna, ela contou que a peça é da marca brasileira de moda praia e beachwear de alto padrão, Feline. A postura e o brilho da peça confirmam que algumas apostas de styling nascem para serem notadas.

A cirurgiã-dentista piauiense Camila Coutinho vive dias de descanso em Bariloche. Para um passeio no lago Nahuel Huapi, ela escolheu uma combinação de texturas, com a paleta monocromática reforçando uma estética refinada, própria de quem já sabe exatamente o que veste bem. A calça é da marca My Favorite Things, o casaco e o suéter são Zara e a bota é por UGG. 

A influenciadora e empresária Brena Beinar foi fotografada em um conjunto midi floral, tom pêssego. A escolha de um recorte estruturado sobre estampa suave sugere alguém que entende de proporção e não depende de cor forte para chamar atenção.  As peças são da sua loja, localizada em Teresina, a Beinar. 

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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