O pai-avô e o pavor de estar só: afinal, o amor acaba quando o luto é superado?

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço dedicado à reflexão sobre as questões humanas que atravessam o cotidiano. Em meio ao fluxo acelerado de informações, a coluna propõe um olhar sensível e aprofundado sobre relacionamentos, conflitos familiares, dilemas emocionais e os desafios da vida afetiva.

Os textos são construídos a partir de relatos enviados pelos leitores. Com absoluto sigilo e respeito à privacidade, cada história é transformada em uma análise psicanalítica que ultrapassa o caso individual e dialoga com experiências compartilhadas por muitas pessoas.

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Relato enviado por um leitora anônima

Perdi meu avô há cinco anos e, até hoje, tenho dificuldade até de falar que ele morreu. Para mim, ele sempre foi muito mais do que meu avô. Foi quem me criou, quem me levava para a escola, quem sabia quando eu estava triste sem que eu precisasse falar e quem eu procurava quando alguma coisa dava errado. Na última semana de vida dele, minha mãe me ligou dizendo que ele tinha piorado e que talvez fosse bom eu ir vê-lo. Eu tinha uma prova importante no dia seguinte e disse que iria depois. Ele morreu naquela madrugada. Acho que uma parte de mim ficou presa naquele dia. Guardo até hoje o último áudio que ele me mandou, mas nunca consegui ouvir até o final. Também tenho algumas roupas dele guardadas e evito passar perto da casa onde ele morava. Eu sei que não poderia ter impedido a morte dele, mas isso não muda a sensação de que eu deveria ter estado lá. Às vezes, penso que, se eu tivesse ido, alguma coisa dentro de mim estaria diferente hoje.

Com o tempo, comecei a perceber que tenho medo de deixar de sentir essa dor. Quando acontece algo muito bom comigo, penso imediatamente que queria contar para ele e a alegria diminui. Quando passo muito tempo sem lembrar dele, sinto culpa. Às vezes, tento reconstruir o rosto dele na minha cabeça, a voz, o jeito das mãos, porque tenho medo de começar a esquecer pequenos detalhes. As pessoas dizem que preciso seguir em frente, e eu sei que minha vida continuou, mas existe uma parte de mim que não quer seguir. Parece que sofrer ainda é uma maneira de continuar ligada a ele. Eu queria conseguir lembrar sem sentir esse peso, mas, ao mesmo tempo, tenho medo de que ficar bem seja uma espécie de abandono do amor que tenho por ele.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: 

No mito do Édipo, a menina se descobre só, a figura do pai idealizado cai por terra quando ela descobre que ela está interditada a este homem, que é o marido da mãe e genitor da mesma. A este fenômeno chamamos de Complexo de Édipo. Este luto é vivido pela menina quando nova, devolvendo-a para a mãe, dando caminho para a feminilidade e aceitação da elaboração do luto/castração das coisas do mundo, ou seja, permitindo que a mulher fique madura/centrada e possa seguir na vida elaborando perdas e aceitando-as.

Mito de Édipo (Foto:Reprodução)

No caso da nossa leitora, de cara podemos perceber que ela passou mal pelo Édipo, negou (via avô) a perda do pai, tornando-se uma pessoa insegura e temerosa de aceitar a realidade (o luto das coisas) como ela é. O fato de ela ter usado como artifício transferir o Édipo/renúncia do pai para o avô indica que a mesma teve relações frágeis ou incompletas/desafetivas com o pai. Mostra que, desde o início da sua personalidade, ela foi se orientando para não aceitar lutos e perdas e para “mudar” a realidade de acordo com suas necessidades, desenvolvendo um psiquismo mais voltado para o imaginário e para soluções fantasiosas que a afastam do princípio da realidade. Eu penso, talvez, que você, leitora, tem dificuldade de aceitar a vida como ela é.

Assim, você lida com a perda, negando-a imaginariamente, não deixando a coisa perdida partir. Freud, em seu famoso ensaio Luto e Melancolia, coloca que, quando perdemos algo, a gente elabora lutos/vivências/rituais que nos permitem nos despedir/aceitar a partida deste algo ou alguém importante. Quando não aceitamos isto, Lacan complementa, não conseguimos elaborar este luto e meio que carregamos o “cadáver da coisa perdida” nas costas. Assim, você, por não saber perder, transferiu para o avô a perda do pai e, na falta/morte agora do seu avô, você sente pavor de reconhecer que ele partiu, ficando deprimida, melancólica e ressentida, por não reconhecer/admitir a partida dele e por não ter vivido o momento da morte do seu avô.

Assim, por sua dificuldade de aceitar que as perdas são necessárias, você inventou um artifício genuíno (decorrente da sua estrutura narcísica) de congelar o tempo: você não foi ver e fazer o ritual de passagem e despedida da morte do seu avô. Dessa forma, você sente, tem a ilusão de que ele está vivo, de que não morreu, lidando com o fato/memória do acontecimento constantemente e transformando sua vida num inferno de Sísifo, condenada a reviver/experienciar o momento da morte do seu avô e o luto dele todos os dias, num castigo quase eterno. Cara leitora, o semideus grego Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra morro acima todos os dias e, quando a pedra chegava ao topo, ela rolava para baixo e ele tinha que buscá-la e reiniciar o processo de novo e de novo… Lembrei deste mito grego porque ele representa você na sua busca de reviver o momento trágico da partida do seu avô.

Sísifo (Foto: Reprodução)

Perceba, leitora, que você desenvolveu uma personalidade frágil, imatura (fóbica), num luto patológico, em que você não deixa seu avô partir, lembrando dolorosamente dele, transformando esta lembrança dolorosa num gozo de reviver, na lembrança, seu avô, carregando o cadáver do seu avô nas costas e não deixando ele morrer. Tudo isto de forma inconsciente, claro. A dor faz você não se sentir sozinha e faz seu inconsciente ter a falsa ilusão de que seu avô ainda está ali, esperando você chegar para se despedir. Assim, você vivencia sempre um pré-luto como algo necessário e pontual para não entrar em contato, para não acreditar na morte e no fato de que seu avô morreu e que você o perdeu e não teve a coragem de sequer se despedir dele.

Ao não se permitir viver aquele dia, você o congelou no tempo e encontrou uma forma de enganar sua mente e causar um delírio (crença) inconsciente de que seu avô vive e está à espera dela para lhe dizer adeus. Coisa semelhante acontece com alguém quando algum parente querido se vai e ela sonha com este alguém. No sonho, a pessoa querida volta à vida.

Aqui, o que está em questão é que a istória com I, inventada/alucinada por você, de substituir seu avô pela lembrança e pela culpa (rolagem da pedra avô: morro acima/morro abaixo) (olha aí o significante: morro/morte aparecendo) deixa você física e psiquicamente esgotada por culpa e remorso de não ter tido a coragem de vivenciar este adeus, gerando lembrança contínua do fato.

Você está presa a esta situação, assim como Sísifo está preso à pedra/obrigação de rolá-la “morro” acima. Isto faz você achar que, se tivesse ido ver seu avô, ele não teria morrido e não aceitar a realidade real de que a morte dele era inevitável. O medo de esquecê-lo (rosto/voz/mãos/carinho etc.) fez você armar esta armadilha inconsciente para você mesma. Você deu um jeito de continuar ligada a ele, como dizia Lacan: carregando o corpo do seu avô nas costas. Você, na impossibilidade de vivenciar um ritual de despedida, criou um ritual macabro de venerar um morto/vivo que a deixa triste, culpada, pesarosa e melancólica.

Veja, seu sofrimento e o que você fez não são algo absurdo, mas fabricado inconscientemente por medo de você ficar sozinha no mundo e pelo medo de você vivenciar perdas e lutos (encarar a morte). Ana Claudia Quintana escreveu um livro famoso que aconselho você a ler: A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver. Ele fala que se preparar e preparar os entes queridos para este momento de partida é necessário para nossa saúde mental.

A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver (Foto: Reprodução)

A saída disto tudo é você deixar seu avô partir, ir a uma análise e ressignificar o amor que você teve por seu avô. Segundo Freud, a palavra mata a coisa, no seu caso, a coisa é a culpa que você sente e que você criou por não permitir que seu avô, dentro de você, morresse.

Uma forma de você fazer isto também é trabalhando, na análise, as questões de desamparo com seu pai, provavelmente a fonte da sua dificuldade de perder. Você, talvez por não ter seu pai como deveria/sonharia, se agarrou ao seu avô como tábua de salvação e desconfio que você faz isto com todas as coisas que lhe são caras: namorados, inclusive. Vejo aqui o perigo iminente de você se submeter a qualquer negócio amoroso por não permitir/conseguir enxergar o término de uma relação.

Por fim (ou por começo?), uma forma de você exorcizar o fantasma do dia da sua fixação ao corpo morto do seu avô seria escrever uma carta à mão para ele, dizendo tudo que queria dizer ao mesmo se pudesse, psicologicamente, ter ido no dia da morte dele se despedir. Leia esta carta no túmulo dele, como se estivesse falando para ele, e ponha lembranças amorosas da sua vida com ele nesta carta. No fim do rito, deixe a carta, de alguma forma, guardada ou fixada no túmulo do seu avô. Este feito servirá de ritual de despedida e muito provavelmente te deixará mais leve e livre do peso da culpa.

Personagem da série Stranger Things lendo um carta para o irmão falecido (Foto: Reprodução)

Lembre-se: a saída do seu luto e melancolia é transformar a lembrança traumática numa lembrança boa. Ao fazer isto, você troca o ritual fúnebre para não esquecê-lo por um ritual menos pesado/triste de despedida, lembrando dele através das coisas boas e eternizando seu avô dentro do seu coração.

Lembre-se: aqueles que amamos nunca partem de dentro de nós; a saudade eternizará a presença do seu avô dentro de você. Transformar dor em saudade seria a forma mais bonita e perene de homenageá-lo.

Boa sorte na sua tarefa de deixar partir seu avô e de deixar seu legado e suas memórias florescerem dentro do seu coração.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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