Assistir filmes escondidos, pichações como protesto e medo de ser preso: pesquisadores recuperam imagens que mostram como o Piauí era na Ditadura Militar

Entre 1964 e 1985, o Piauí viveu em meio a forte repressão política, cassações de mandatos e controle social, com episódios de alinhamento e apoio de parte das elites locais a Ditadura Militar que, naquela época, se instalou em todo o país. Quase meio século depois, um grupo de pesquisadores se uniu para restaurar imagens gravadas na época, que registram a realidade social do estado em meio à repressão.

Foi nesse mesmo período que o Grupo Mel de Abelha, que foi um coletivo de cinema independente de Teresina, no Piauí, registrava em filmes o cotidiano da época, entre músicos reunidos e pichações, que nos chamados “anos de chumbo” eram proibidas. O grupo estudantil surgiu no fim dos anos 1970 e ficou ativo entre 1980 e 1985, formado por estudantes da Universidade Federal do Piauí (UFPI) ligados ao Cineclube Teresinense.

Registros das produções (Foto: Grupo Mel de Abelha/ reprodução)

As imagens, histórias e memórias do Piauí voltaram às telas durante a 9ª Parada de Cinema – Mostra de Cinema Brasileiro Contemporâneo, em parceria com a Cinelimite.

O Boletim Brio entrevistou um dos membros do Grupo Mel de Abelha e o profissional responsável pela restauração das fitas para entender como o projeto se consolidou e os episódios mais marcantes da época em que tudo aconteceu.

A realidade enfrentada nos longas

Em entrevista, uma das participantes do Grupo Mel de Abelha, a cineasta Dácia Ibiapina, de 68 anos, relembrou como tudo começou há anos.

“Nós éramos estudantes de Engenharia Civil na Universidade Federal do Piauí. Então, estávamos interessados em cinema, íamos muito ao Cine Royal, que ficava no centro de Teresina, assistíamos a filmes e debatíamos os filmes”, afirmou a especialista em cinema.

Registros das produções e Dona Dácia Ibiapina (Foto: Grupo Mel de Abelha/ reprodução)

O grupo era formado por Valderi Duarte, Luís Carlos Sales, Socorro Melo, Dácia Ibiapina e Lourena Rego, com colaboração de Rosemberg Vieira Peixoto. O Mel de Abelha produziu sete curtas-metragens que atravessam temas como trabalho, moradia, religiosidade, festas populares e memória local.

O que o grupo representava

Dácia contou que, na época, o projeto representava para o grupo de estudantes, além de uma paixão pelo cinema, um protagonismo da cidadania daquela juventude piauiense.

“O que fizemos nesse período faz parte da nossa formação como engenheiros também, mas também como cidadãos, como piauienses, como teresinenses e como pessoas aprendendo a fazer cinema”, pontuou a cineasta.

Registros das produções (Foto: Grupo Mel de Abelha/ reprodução)

Os principais filmes produzidos pelo grupo foram: “Povo Favela – 1980”, “Pai Herói – 1981”, “Relógio de Sol – 1982”, “Espaço Marginal – 1982”, “Dia de Passos – 1983”, “Pagode de Amarante – 1984” e “Da Costa e Silva – 1985”.

Momentos marcantes do grupo

Dácia destacou que uma das principais formas que acredita serem capazes de despertar nas novas gerações um olhar atento aos filmes é a realidade completamente diferente da dos dias atuais, a começar pela ausência de uma democracia.

“A gente tem um dos filmes em que a gente filma umas pichações na rua. Como não era uma democracia na época, muita coisa era proibida; os pichadores tinham que fazer suas pichações e se defender para não serem presos pela polícia e tal. Então, tem esse filme, Pichações, que tem a ver com esse silenciamento da juventude, essa dificuldade de poder desfrutar com liberdade da cultura. Tudo era censurado, era fiscalizado. Acho que nos filmes dá para ver um pouco disso também”, frisou a participante do Grupo Mel de Abelha.

Registros das produções (Foto: Reprodução)

O medo era real

Outro momento marcante que Dácia relembrou em entrevista ao Boletim Brio foi quando o grupo decidiu exibir um filme censurado dentro da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e, por medo de serem pegos, resolveram exibi-lo no auditório da Escola de Medicina da Universidade, próxima à Avenida Frei Serafim, por se tratar de um lugar mais reservado.

Apesar disso, a cineasta afirmou que o medo de serem pegos e, consequentemente, presos continuou sendo muito forte. “Passamos um filme censurado em um auditório da Escola de Medicina que fica ali perto do Hospital Getúlio Vargas. Não me recordo do nome do filme. É algo que não podíamos fazer, mas fizemos, com muito medo, é claro”, frisou Dácia.

Dácia contou que, por ser o grupo dedicado ao cinema um movimento estudantil, a preocupação com represálias era muito forte. Por exemplo, se fizessem qualquer manifestação, precisariam fugir às pressas para não serem presos.

Sexta sangrenta no Rio de Janeiro (Foto:Reprodução)

“Os movimentos estudantis, então, na época da Ditadura, os movimentos estudantis universitários eram muito perseguidos. E as pessoas correram muito risco e, se quisessem fazer um protesto, tinham que fazê-lo e sair correndo para se esconder, para não serem presas. Isso, as pessoas de hoje, os jovens de hoje têm dificuldade de entender isso. Na Ditadura, inclusive, havia livros que eram proibidos, músicas que eram proibidas, muitos filmes que eram censurados”, apontou Dácia.

Um pouco da importância da restauração

William Plotnick, cineasta responsável por restaurar os filmes, considera que o mais importante nas produções é a manutenção da história do povo piauiense, apesar de acreditar que os filmes não devem ser encarados apenas como meros documentos históricos, e sim como verdadeiras obras cinematográficas.

William Plotnick e o processo de reparação dos filmes (Foto: Reprodução)

“Acho que existe uma oportunidade muito especial de uma geração mais jovem entrar em contato com o Piauí do início dos anos 1980 através dos olhos de jovens que viviam aqui naquele momento. Não são imagens produzidas de fora sobre o estado. São filmes feitos por piauienses observando as próprias cidades, comunidades, festas, conflitos políticos e transformações sociais. Também acho importante que os filmes sejam vistos como cinema, e não somente como documentos históricos. Eram jovens aprendendo cinema coletivamente e encontrando formas de registrar aquilo que consideravam importante ao seu redor”, enfatizou Plotnick.

O registro de um cotidiano

O cineasta mencionou que as gravações possuem registros das pichações que eram feitas em protesto ao regime militar e revelam pessoas trabalhando, andando pelas ruas e fazendo música, em um momento em que todo o meio artístico passava por dificuldades.

Registros das produções (Foto: Reprodução)

Os filmes exibem um Piauí que vivia as rotinas e tradições da forma que podia em uma época difícil, e essa é uma riqueza que as criações audiovisuais do Grupo Mel de Abelha consegue mostrar.

“Uma das coisas mais interessantes da mostra é justamente essa possibilidade de olhar para lugares conhecidos e perceber como eram quarenta anos atrás, através de um cinema feito por quem estava vivendo essas transformações”, concluiu o restaurador das obras.

Onde assistir aos filmes

Para aqueles que se interessarem em prestigiar essas produções que conectam presente e passado por meio do cinema piauiense, a mostra dedicada ao Grupo Mel de Abelha integra a programação da 9ª Parada de Cinema, que acontecerá de 7 a 10 de outubro, no Museu da Imagem e do Som do Piauí, o MIS-PI, em Teresina. Com o tema “O Cinema é uma Viagem”, o evento reúne exibições, mostras, sessões especiais, encontros com profissionais do audiovisual, oficinas, curso de formação e atividades voltadas para estudantes da rede pública.

Segundo o projeto Parada de Cinema, a exibição das obras é mais do que uma forma de recuperar filmes: propõe um reencontro com imagens que ajudam a contar a história do estado. São registros que convidam o público a pensar sobre a importância de preservar aquilo que também constitui a memória coletiva.

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