Como e por que a violência alcança a infância? A história de Hydhino Davy, esquartejado aos 12 anos em Teresina

Joyce Nirvana, especial para o Boletim Brio

Hydhino Davy Gomes Lima, de 12 anos (Foto/ reprodução)

Hydhino Davy Gomes Lima, de 12 anos, era uma criança com hábitos comuns para a idade que tinha. Gostava de brincar, soltar pipa e correr pelas ruas do bairro Parque Universitário, na zona Leste de Teresina. Em 2023 e 2024 frequentava o Clube de Desbravadores da comunidade. Como ainda era novo, com 8 para 9 anos, não tinha a idade mínima de 10 anos para receber o lenço oficial do grupo. Mas a idade nunca impediu Davy de cumprir com as obrigações do clube.

“Dentro do clube, o Davy era a criança que eu conheço, brincava com as outras crianças, amava jogar futebol e jogava muito bem, fazia as atividades do caderno de classe e lia a Bíblia com frequência. Davy sempre me respeitou muito e, dentro do clube, era minha palavra que prevalecia. Era um menino muito carinhoso, me abraçava, beijava no rosto e chamava de ‘Tia Bruna’”, diz Bruna Raryana, uma das coordenadoras do Clube dos Desbravadores, ao Boletim Brio.

A imagem do menino carinhoso dentro e fora de casa contrasta com a forma brutal e cruel que marcou o fim prematuro de sua vida.

Hydhino Davy Gomes Lima, de 12 anos (Foto enviada ao Boletim Brio)

Na noite do dia 13 de outubro, Hydhino Davy deixava a casa dele e, desde então, nunca mais foi visto. Somente no dia 17 de outubro, quatro dias depois, o corpo da criança foi encontrado em um terreno baldio no bairro Samapi, também na zona Leste de Teresina. Uma criança, de 12 anos, teve seu corpo esquartejado e nem todas as partes do corpo foram encontradas.

A gravidade do crime ganhou camadas ainda mais complexas quando dois autores do crime se apresentaram na Central de Flagrantes: dois adolescentes que confessaram não só a participação na morte de Davy, como também em um outro assassinato na região. Dias depois, um terceiro adolescente também foi apreendido por envolvimento no caso.

Mas o que levaria dois adolescentes a cometerem um crime tão bárbaro contra outra criança?

Hydhino Davy Gomes Lima, de 12 anos (Foto enviada ao Boletim Brio)

Em entrevista à TV Clube, o coordenador do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Francisco Costa, o Barrêta, disse que Davy teria envolvimento em roubos, junto com os outros três adolescentes. Eles teriam atraído a criança para praticarem um assalto, já com a intenção de cometer o homicídio. Um dos adolescentes confessou que o que motivou o crime foi porque Davy teria furtado pertences da tia de um deles, além de ser um “cruzeta”, que, na linguagem deles, seria alguém que estaria passando informações de um para outro.

Barrêta (Foto/ reprodução da TV Clube)

“Ele não tinha maldade no coração”, diz mãe de Davy

De acordo com a Polícia Civil, Davy e outros dois adolescentes que foram apreendidos teriam envolvimento no homicídio de Joel Araujo Lustosa, ocorrido em 12 de setembro. Porém, para a família, essa narrativa não condiz com quem era o menino. Em entrevista ao Boletim Brio, a mãe de Hydhino Davy, Thays Pamela, negou que o filho tivesse qualquer envolvimento com o crime.

“Ele não era esse criminoso que disseram. Das vezes que ele acompanhou, ele não fez nada disso, ele sempre corria. Eles que influenciaram e disseram que ele era o primeiro a correr”, defendeu em conversa com por telefone.

Davy em atividade esportiva (Foto enviada ao Boletim Brio)

Segundo Thays, Davy era uma criança como qualquer outra, sem maldade no coração. Para além do inquérito e do cumprimento de medidas socioeducativas, a dor que a família sente não será curada através do sistema de justiça criminal. Para Thays, nenhuma resposta do Judiciário será capaz de valer o peso de perder a vida do filho.

“Nunca vai ter justiça para o que eles fizeram com ele. Da forma que eles fizeram, pelo Davy ser só uma criança. Nunca vai ter justiça. Ele não tinha maldade no coração não, de jeito nenhum, para ter acontecido essa crueldade que aconteceu com ele. Eu tô indignada”

Para os amigos e para a família, Davy sempre será a de uma criança, como qualquer outra: alegre, carinhosa, respeitosa. “A forma que vou lembrar do Davy é a dele rindo durante nossas gincanas, dele correndo para me dar um abraço apertado, do sorriso sincero dele sempre que se sobressaía em alguma brincadeira e do quanto ele ouvia com carinho sobre Jesus”, finalizou Bruna.

Facções encontram terreno fértil em vulnerabilidade econômica

A tragédia envolvendo a morte de Davy não é um ponto fora da curva no Piauí. Em julho deste ano, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026). Os dados apontam que o Piauí foi na contramão do resto do país. Enquanto a tendência nacional foi de uma redução de 10,8% nos casos de mortes violentas envolvendo crianças e adolescentes, no Piauí houve um aumento de 46,2%.

O número explicita uma realidade em que a infância na periferia está cada vez mais encurralada entre a vulnerabilidade social, o aliciamento e a extrema violência. O sociólogo e pesquisador em Segurança Pública, Marcondes Brito, explicou ao Boletim que o avanço das facções criminosas encontra um terreno fértil em um histórico ambiente de vulnerabilidade desde os anos 1990, quando jovens teresinenses já participavam de crimes como homicídio.

“Durante um período se tentou desenvolver algumas ações pela Sasc e, logo depois disso, a partir de 2005, 2006, 2007, há um abandono de políticas para a infância e para a adolescência quando a gente pensa a nível de estado. Quando a gente olha a nível de município, essa situação piora ainda mais, porque os municípios piauienses são meros executores das políticas federais, com exceção de prefeituras maiores, como Teresina, Parnaíba e Floriano, que têm uma capacidade de arrecadação e, portanto, de elaborar e implementar políticas públicas de prevenção e de cuidado com a primeira infância”, destacou.

Durante o período eleitoral, o assunto da redução da maioridade penal ressurgiu. Diante de crimes graves praticados por jovens, o debate gira em torno de técnicas mais punitivas. Para o sociólogo, a discussão ignora a realidade de dados importantes.

Pesquisador em Segurança Pública, Marcondes Brito (Foto/ reprodução)

“Quando você olha para os dados, inclusive o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e o próprio CONANDA [Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente], menos de 1% dos homicídios no Brasil são praticados por crianças ou adolescentes. Se você olha para jovens e adultos, todo o percentual fica lá”, disse.

Marcondes Brito ainda afirma que, mesmo países citados pelos defensores da redução da maioridade, como o País de Gales e a Inglaterra, não abandonaram a proteção social: mesmo quando há a responsabilização legal precoce, os sistemas mantêm o acompanhamento socioeducativo até os 21 anos.

No final de tudo, a tragédia que encerrou precocemente a vida de Davy e envolveu outros dois adolescentes apenas escancara uma falha estrutural no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo Marcondes Brito, antes mesmo de implementar de fato a política de proteção integral da infância, o Estado deixou de prestar este serviço.

“É estranho porque há um processo de desresponsabilização tanto do Estado quanto dos municípios de cuidado às infâncias, principalmente às infâncias empobrecidas e vulnerabilizadas. Nos últimos 15 anos houve um desinvestimento nas políticas de infância, enquanto as agências estaduais, e no Piauí, diminuíram o investimento na atenção primária e nas políticas de proteção. Os municípios não assumiram essa questão porque eles próprios não têm dinheiro para isso. Foi justamente o período em que a violência aumenta, em que as facções passam a utilizar crianças e adolescentes em suas fileiras”, disse.

A reportagem do Boletim Brio entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) para um posicionamento sobre a quantidade de mortes violentas em crianças e adolescentes, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve retorno.

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