As “Mias” racionais e os homens imaturos do Piauí: entre a paixão e o amor, amadurecer também é aprender a deixar alguém para trás

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, abre espaço para pensar os afetos, os vínculos e os conflitos que fazem parte da experiência humana. A partir de um olhar psicanalítico, os textos abordam questões familiares, relações amorosas, dilemas emocionais e inquietações que, muitas vezes, permanecem silenciadas no dia a dia.

Cada reflexão parte de uma história compartilhada por leitores e ganha uma nova dimensão por meio da análise psicanalítica. Com discrição e cuidado com a privacidade, os relatos são acolhidos como ponto de partida para discutir questões que, embora pessoais, também encontram eco na experiência de outras pessoas.

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Relato enviado por um leitor(a) anônimo(a)

Conheci meu primeiro e único namorado aos 13 anos e ficamos juntos até os 17. Nossa conexão foi instantânea. Gostávamos das mesmas coisas e estar com ele era muito natural. Mas, conforme fui crescendo, comecei a pensar no nosso futuro de forma mais concreta, em faculdade, trabalho e responsabilidades (pensava até em como seriam os dois filhos que teríamos).

Mas, sentia que ele continuava na mesma, videogames, futebol, amigos, ficar na internet até tarde. Quando disse que não faria o Enem porque queria ser empresário, percebi o quanto nossas expectativas estavam diferentes. Já não conseguia imaginar um futuro juntos e terminei.

Nunca mais encontrei alguém tão tranquilo e que combinasse tanto comigo e me trouxesse tanta paz e estabilidade. Confesso que sinto saudades. Às vezes, olho suas redes sociais e ele não mudou nada, continua na mesma vida de adolescente. Penso que talvez ainda fôssemos felizes juntos, mas também que eu acabaria assumindo o papel de mãe dele e me sentiria infeliz com isso também.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes:

As moções adolescentes são atuadas como se fossem uma espécie de montanha-russa, em que os altos e baixos do medo, da coragem, dos hormônios, da alegria, da raiva, da tristeza e, por fim, do amor são vividos como experimentos necessários para o treino de estabilização da vida futura.

Nesta fase, um tanto quanto aborrecente, podemos dizer, leitora, que você estava testando toda a sua forma de amar, conquistada durante a infância e a pré-adolescência, dominando-a, passando de uma vivência do princípio do prazer para o princípio da realidade. Vejo que conseguiu ser bem-sucedida.

Cena do filme La La Land (Foto reprodução)

A sua história lembra a da protagonista Mia, no filme La La Land: Cantando Estações, metáfora perfeita do fim da juventude idealizada e do começo de uma vida madura, voltada para o princípio da realidade. Por isso mesmo, leitora, te chamarei de Mia da revista Brio, para diferenciar da Mia de La La Land, ok?

O próprio nome do filme dá um significante interessante: La La Land: Cantando Estações remete à ideia de que a vida é uma dança, que dançamos conforme as músicas de cada estação, e mostra que a música que embala a estação da adolescência é a de ninar. Pois veja, Mia: quem primeiro cantou lalações para reduzir o impacto da dor do Real nas nossas vidas? A resposta é certa: nossas mães. Só a música tão calcada (ou seria recalcada) na nossa infância poderá ou pode confrontar os pisões nos pés e os tropeços que levamos ao dançarmos esta dança da vida.

Foto ilustrativa

Assim, Mia da Brio, vou costurar a sua história com a história de Mia do filme, mas antes vou colocar pontos psicanalíticos de esclarecimento desta fase tão delicada da sua vida amorosa e da vida amorosa de todos: a adolescência.

A fase de formação amorosa vai do nosso nascimento até a fase de latência (de 0 a 7 anos), quando a criança vive uma batalha interna emocional/educativa/social/biológica para escolher um objeto amoroso.

É quando a formação psicossexual (orientação sexual em construção) da criança passa dos impulsos fantasiosos apaixonados do princípio do prazer (de 0 a 5 anos) para uma forma de amar mais racionalizada e regulada pelo recalque/razão/amor/sublimação (regida pelo princípio da realidade). É nesta fase que a criança percebe que o polimorfismo sexual e erótico pode ser perigoso e passa a investir nos prazeres da cultura: esporte, joguinhos, leitura etc.

Na adolescência, devido aos hormônios e à imposição social, a estação da vida sexual retorna com força total, por meio de uma força cega/faca amolada chamada paixão: pá no chão, força idealizadora de sonhos e que geralmente leva os sujeitos a caminhos difíceis. Estamos aqui no campo edípico dos domínios das paixões e do reconhecimento dos limites e das leis amorosas e sexuais. O Édipo é o conjunto de moções pulsionais apaixonadas que a criança experimenta com os pais e que determinam a sua identidade sexual e a sua orientação sexual.

Éros, o Cúpido (Foto ilustrativa)

Todas as crianças e adolescentes têm como tarefa psicológica dominar estas pulsões e transpô-las para objetos lá fora: um homem ou uma mulher fora do círculo familiar. Na adolescência, estas moções infantis reaparecem, exigindo que o adolescente experiencie sexo e amor como uma forma de revelar quais inscrições do passado afetivo com os pais determinam, no presente, suas escolhas amorosas e sexuais.

Passar bem pelo complexo de Édipo implica nisto: domínio das paixões. A pessoa com uma relação materna e paterna mais tranquila na infância tenderá a passar sem grandes sobressaltos pelo abandono dos objetos amorosos pai e mãe e conseguirá substituir com tranquilidade estes objetos por correlatos lá fora (namorado/a e amigos).

O Édipo é uma saga apaixonada que deságua no amor, e controlar este Édipo, domar as paixões e sublimá-las amorosamente é tarefa de cada um, a ponto de Freud dizer que quem não executa bem esta tarefa será dominado por paixões que o farão ficar cego e errante na vida, ou seja, quebrando a cara e batendo a cabeça em conflitos amorosos por muito mais tempo que o necessário.

Sigmund Freud (Foto/ reprodução)

Este processo de amadurecimento, de escolhas amorosas pautadas em amor de perdição (paixão) ou amor de salvação (razão), tem seu ápice na adolescência. Na verdade, Mia da Brio, o adolescente é um domador de leões/paixões que tem como tarefa domar uma paixão/leão por dia para que não seja atacado (os leões/paixões a que me refiro são seus conflitos passionais — paixonais — amorosos). Esta tarefa será menos árdua e mais tranquila se a criança teve, na infância, pais suficientemente bons e com uma relação conjugal equilibrada, que favoreçam a individualização e o respeito ao sujeito adolescente e a sua capacidade de ponderar e relativizar o princípio do prazer, sobrepondo a ele o princípio da realidade (trocar paixão por amor).

Skins, série teen de sucesso nos anos 2000 (Foto/ reprodução)

Dito de outro jeito, pais que favoreceram que o sujeito tomasse distância do conflito amoroso, o repensasse e o reconduzisse castradamente para um patamar mais equilibrado e pé no chão, desarmando a paixão cega/faca amolada, difícil de ser usada sem nos ferir.

Dito isto, vejamos, na prática e na leitura do filme, como as duas Mias (Mia da Brio e Mia de La La Land) resolveram seus conflitos amorosos, autorizaram-se a fazer escolhas, planejaram a vida amorosa e ficaram livres da paixão/faca amolada.

Vocês duas, Mia e Mia, viveram, possivelmente, uma infância feliz e com pais mais tranquilos, que permitiram que vocês passassem, na adolescência, sem muitos danos, do princípio da fantasia (paixão) para o princípio da realidade (pés no chão). Vocês, nas suas escolhas eróticas adolescentes, reeditaram o princípio do prazer/fantasia, apaixonaram-se e viveram a vida de sonho típica desta fase, até que a realidade bateu à porta de vocês. Ambas perceberam que o seu objeto amoroso era imaturo demais e incapaz de acompanhá-las na jornada da vida e, por isso, terminaram o relacionamento, buscando seguir maduramente a vida adulta. Vocês duas fizeram escolhas boas, escolhas que as favoreceram mutuamente. Vocês saíram de uma paixão histérica/cega e caíram na realidade da busca de um amor comedido, por vontade/inclinação própria, dando chances para o aparecimento do amor ou para a busca dele.

Na verdade, Mias, vocês, ao dizerem não ao excesso de sonho, fantasia e paixão, adentraram o mundo do amor, pois amar não é ter o outro sem medir as consequências, mas sim o contrário: amar é poder escolher, de forma castrada, serena, a pessoa que dará mais certo de ficar ao lado de vocês. Podemos dizer que o grande triunfo das suas paixões foi fazer vocês duas treinarem/exercitarem a lida com o amor.

Para a psicanálise, depois da paixão vem o amor, o que quer dizer que a pessoa faz escolhas ponderando os princípios do prazer e da realidade, escolhendo o que a satisfaz, abandonando o desejo infantil inconsequente e fantasioso por um desejo mais castrado e possível. A paixão é o descontrole, e o amor implica o melhor controle da situação. Vocês, através das ações de separação e busca de um relacionamento mais maduro, provaram que afeto não é uma questão de querer o impossível (paixão). Sim, vocês são pessoas fortes, que desistiram de paixões/facas amoladas por um amor seguro, com gosto de fruta madura (como dizia o saudoso Cazuza), desistiram do sonho em excesso por uma realidade mais coerente. Na psicanálise, dizemos que vocês são pessoas serenas, que sabem lidar bem com a realidade amorosa (sabem lidar com limites).

Cena do filme La La Land (Foto/ reprodução)

Lembro agora daquele álbum de figurinhas: Amar é… Todas, sem exceção, remetiam à ideia de que amar é construção/investimento. Isto mesmo, o amor também pode e deve ser construído e investido, por mais duro e difícil que seja para a gente fazer escolhas e deixar para trás algumas paixões, como as duas Mias fizeram.

Assim, despeço-me de vocês, duas Mias, com a letra da música de André e Ronaldo Bastos, “Dois corações”:

De que é feito o amor?

Dizem que o amor é paz

O que o amor te deu, ninguém pode tirar

Continue, Mia leitora, buscando, com o pé no chão, seu amor. Lembre-se de que o que o amor dá (constrói) ninguém jamais poderá tirar. Lembre-se também de um triste fato para os que não sabem amar: sem amor não há paz e sem paz não há amor!

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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