“Eu fiz um vídeo de 50 segundos, completamente despretensioso. E esse vídeo simplesmente explodiu”. O diretor de cinema Júnior França fala de uma das primeiras experiências que teve com o uso de inteligência artificial. Fã de super-heróis, decidiu experimentar uma história do Superman com imagens geradas pela ferramenta. A tentativa ganhou continuidade e o canal no YouTube soma, segundo ele, mais de 10 milhões de visualizações. Outros vídeos vieram com a ajuda do irmão, Igor França, que é roteirista, e os dois passaram a planejar histórias com personagens próprios. (Veja aqui)

Com diversos filmes na trajetória, ainda antes de a expressão inteligência artificial se tornar popular, o diretor conhece o tempo e o trabalho necessários para transformar uma ideia em uma cena pronta. Em entrevista ao Boletim Brio, afirmou que hoje a IA ajuda principalmente na pós-produção, permitindo economizar tempo e recursos. Ao falar da fórmula de sucesso do canal no YouTube, que ultrapassou as fronteiras do Piauí e do Brasil e chegou a espectadores até na China, onde conseguiram fechar uma parceria com a plataforma Youart, ele destaca que conquistar o público depende também do cuidado com o roteiro, com a edição e com a história que se quer contar. Para ele, as imagens podem ser geradas por uma IA, mas a história precisa ter um coração humano.
“Eu não acho que vá substituir ninguém, é minha opinião. Eu não acho que vá substituir atores. Existe uma conexão humana que eu acho que faz diferença nesse processo”, avaliou. “Meu irmão cria o roteiro, ele é roteirista, e passa para mim. Eu faço esse processo de direção, geração de imagem e edição. Não adianta entregar um conteúdo preguiçoso, só gerar e colar, que não vai rolar (…) Acredito que a IA hoje permite aos pequenos produtores realizarem ideias que por muitos anos ficaram apenas na cabeça como uma ideia”, destacou.
“A IA chegou pelo celular do dono”
“A IA já chegou, mas chegou pelo celular do dono, não pela estrutura da empresa”. É assim que o empresário Tiago Peixoto descreve o uso da inteligência artificial pelo empresariado piauiense. Segundo ele, a tecnologia ainda é muito utilizada para enviar mensagens aos clientes, produzir textos para redes sociais e elaborar propostas, mas nem sempre modifica a forma como a empresa funciona. Em entrevista ao Boletim Brio, destacou que o desafio é incorporar a ferramenta a tarefas que atualmente dependem de alguém para conduzir cada etapa.
“Na iniciativa privada, pelo que acompanho, eu destacaria o agronegócio e a saúde, além do comércio e dos serviços. O que aproxima esses setores é que a IA começa a entrar em decisões e operações que afetam diretamente o resultado”, afirmou. “Mas tirar proveito disso exige reorganizar o trabalho, e aí a mudança depende da gestão”, pontuou.

Tiago ilustra essa diferença com uma pequena loja. O empresário pode pedir à IA uma mensagem de venda ou integrar a ferramenta a um sistema que consulta o estoque, prepara a proposta e encaminha o pedido para separação. Nesse segundo cenário, a equipe fica disponível para negociar e resolver situações que fogem às regras. Antes disso, porém, é preciso organizar os processos. Por essa razão, ele considera que as dificuldades de adoção vão além da resistência à tecnologia e passam também pela necessidade de organização da gestão.
“Automatizar um processo desorganizado pode fazer o erro se repetir mais rápido e em maior escala. É preciso entender o processo, definir o que pode ser executado automaticamente, quando uma pessoa deve intervir e quem acompanha os resultados. A automação pode liberar tempo para atividades que exigem julgamento, relacionamento e criatividade. O que a empresa faz com esse tempo é uma decisão de liderança”, pontuou.
IA pode ser usada, mas sem terceirizar o pensamento, defende professor
Para o professor doutor Orlando Berti, a presença da inteligência artificial desafia as universidades a aproveitar a agilidade das ferramentas sem dispensar o esforço de aprender. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, ele leciona na Universidade Estadual do Piauí e no mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Piauí, além de dirigir o Laboratório de Inteligência Artificial em Jornalismo da Uespi, as pesquisas do professor incluem o uso da IA no Jornalismo.
Na sala de aula, Berti pontuou que procura conciliar o uso da tecnologia com atividades que estimulem a elaboração dos próprios alunos. A preocupação dele é que a facilidade de obter respostas seja confundida com conhecimento. Para o professor, as universidades precisam compreender o funcionamento da IA e estabelecer critérios de uso que considerem cada disciplina e cada turma, preservando a reflexão e a troca entre pessoas.
“As universidades precisam primeiro compreender o que são as inteligências artificiais. Não é só entrar na onda de que elas são benéficas, nem na onda de que elas são maléficas, mas refletir e ter ordenamentos relacionados a isso. […] O que a gente deve é compreender cada disciplina, compreender cada turma. Cada turma é diferente por envolver humanos. Não pasteurizar o conhecimento, porque, quando o conhecimento é pasteurizado, a gente vai precisar da universidade? Vai precisar da escola? Não, você faz isso tudo em casa com a máquina”, refletiu.

Universidades brasileiras já adotam regras para tornar transparente o uso da inteligência artificial na produção acadêmica. Na Unicamp, por exemplo, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses elaborados com auxílio de IA generativa devem incluir uma declaração que identifique as ferramentas e as atividades em que foram utilizadas. No Piauí, a UFPI já solicita essa informação em situações específicas, como nos pré-projetos apresentados à seleção do mestrado em Ciências e Saúde.
SoberanIA, IA piauiense, está em fase de testes
O SoberanIA, projeto de inteligência artificial desenvolvido no Piauí, já tem infraestrutura instalada no estado e um modelo disponível para testes, segundo a Secretaria de Inteligência Artificial informou à colunista. A proposta é adaptar a tecnologia ao português brasileiro e às demandas dos serviços públicos. Em entrevista ao Boletim Brio, Fabbio Borges, diretor de Desenvolvimento de IA da Secretaria de Inteligência Artificial, informou que o desempenho do modelo está em avaliação.
“À medida que o modelo for validado para novas aplicações, queremos usá-lo para reduzir o tempo de análise de documentos, simplificar o atendimento e facilitar o acesso à informação”, afirmou. “Queremos acompanhar essa agenda por resultados concretos, como o tempo de atendimento nos serviços públicos, o alcance das capacitações no interior e os ganhos de produtividade nas empresas que adotarem essas soluções”, destacou.

O governo projeta ampliar o uso do SoberanIA na educação, na segurança pública e na gestão nos próximos quatro anos. Entre as possibilidades estão a análise de documentos e o atendimento com ferramentas que processem texto, voz e imagens, sob supervisão humana. Borges também citou o CapacitIA, destinado à formação de servidores, e o Piauí Mais Digital, que reúne investimentos em conectividade e modernização dos serviços. As respostas não detalham o cronograma de implantação das novas funções do modelo.
A inteligência artificial tem dono. E quem decide seus limites?

Para a cientista política Isabela Rocha-Dashicheva, mestre e doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, a expansão da inteligência artificial também coloca em discussão a soberania tecnológica dos países e o controle sobre os dados utilizados no desenvolvimento dessas ferramentas. A pesquisadora considera que a incorporação de novas tecnologias à produção artística faz parte de um processo histórico, mas chama atenção para os interesses econômicos envolvidos e para a necessidade de desenvolver sistemas que respeitem os direitos dos criadores.
“Eu lembro que, há muitos anos, quando começaram a utilizar o Photoshop e o Illustrator para fazer obras artísticas no computador, muita gente criticava, dizendo que não era arte de verdade. Acho que daqui a muitos anos vamos encarar essa discussão com outros olhos, com a inteligência artificial se tornando ainda mais onipresente na nossa vida. A questão é quem são os proprietários dessas inteligências artificiais. Quando observamos que temos majoritariamente as grandes empresas norte-americanas, com seus próprios interesses, precisamos levar isso em consideração. Se conseguirmos desenvolver uma inteligência artificial brasileira, moldada a partir das perspectivas artísticas brasileiras e considerando a remuneração desses artistas, teremos uma inteligência artificial ética. No fim das contas, é uma questão ética”, afirma Isabela Rocha-Dashicheva.



