Frituras e fraturas: sucessão aberta de Sílvio Mendes racha frente ampla e coloca três grupos em disputa frontal de poder
Em meio a furacões, ataques internos e uma escalada de hostilidade entre aliados, o prefeito de Teresina, Sílvio Mendes (União Brasil) tem, inegavelmente, enfrentado uma crise política, que reflete na gestão e vice-versa.
A instabilidade política pode ser atribuída ao seguinte fato (essa é uma análise da colunista depois de ouvir muita gente, da própria prefeitura e fora dela, ok?): Sílvio não vai disputar a reeleição (é o que ele diz e sinaliza) e os três grupos que se uniram numa coalizão inusitada para levá-lo com êxito ao poder em outubro de 2024, hoje não se toleram e não entram em acordo para construir um sucessor. Guerreiam abertamente. A frente ampla rachou.

Com cinco meses de gestão (para quem está perdido, o ano ainda é 2025), a sucessão de 2028 está deflagrada. A antecipação excessiva contamina a administração. Essa é a versão curta. Vou desenvolver abaixo a longa. Caso seja do seu interesse se aprofundar nas engrenagens do poder na capital (com reflexos diretos na política estadual), venha comigo, leitor. Um aviso: no Palácio da Cidade, só entram profissionais. Os amadores sofrem…
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A “sorte” é que não tem oposição competente… ou tem?
Para um aliado de Mendes ouvido em reserva pelo boletim, a “sorte é que ele (Sílvio Mendes) não tem oposição consistente e competente”. A colunista faz uma ressalva. A oposição a Sílvio existe sim: está na própria gestão.
Os direitistas não suportam os jeovazistas, enquanto estes, pulam longe na calçada se avistam a velha guarda (ex-tucanos). Os últimos, retribuem o “carinho” dos primeiros. Sabe aquele poema do Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria…”? É o contrário: “Fulano, que odiava Beltrano, que tramava contra Sicrano…”
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Inferno astral
É preciso diferenciar os atritos cotidianos e inevitáveis da política daquilo que é uma crise. O termo remonta à medicina grega: “krisis” era o momento decisivo em que uma doença poderia piorar ou melhorar, exigindo ação imediata. Na política, não é diferente — uma crise é um ponto de virada.
“Na última semana, pessoas ligadas a Jeová foram para cima do Petrus (Evelyn, vereador do PP, que critica Jeová abertamente nas redes sociais). Vereadores com esposas em bons cargos foram para cima da gestão, denunciaram possível esquema na licitação do lixo e aprovaram convocação de secretários, além de uma constrangedora acareação entre prefeito e ex-prefeito…”, elencou um gestor da prefeitura, experiente em gestões passadas, em conversa com a colunista. É pouco ou quer mais?
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Jeová versus Ismael versus Marco Antônio versus Charles
Todos os pretensos candidatos à sucessão de Sílvio Mendes – o secretário municipal de Governo, Jeová Alencar (Republicanos), o secretário de Educação, Ismael Silva, e os secretários de Desenvolvimento Urbano e Saúde, respectivamente, Marco Antônio Ayres e Charles da Silveira – negam publicamente a intenção. E aí? “Dormem e acordam sonhando com isso”, refuta um conhecedor dos meandros, que não está no bolo, mas entende da personalidade do triunvirato (colocando Charles e Marco Antônio no mesmo núcleo, no caso)1.

“Mesmo com saúde, acho que ele não vai ser candidato (à reeleição). O Ismael sendo carismático, o Jeová é mais articulado, o Marco Antônio tem força (na gestão) e o Charles perdeu espaço depois daquele episódio da saída e retorno”.
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De quem é a culpa?
Se há um erro, alguém precisa ser responsabilizado, óbvio. Em toda boa história, o herói precisa do vilão, da ideia contrária, antagônica. “Ele (Sílvio) vai para cima da gestão Dr.Pessoa e Firmino (Filho), esquecendo que os responsáveis por pastas como Governo, Finanças e Saúde, Planejamento e Strans, hoje são seus secretários”, aponta um integrante da gestão Mendes.
A respeito da conhecida dificuldade de caixa na prefeitura de Teresina, o fato é que políticos da base e fora dela enxergam que o buraco na narrativa de Sílvio Mendes em entrevistas à imprensa é que os teoricamente “culpados” estão na gestão, escolhidos por ele próprio: parte importante foi secretário de Dr.Pessoa (ex: Jeová Alencar), outra parcela é base dele na Câmara de Teresina (ex: Bruno Vilarinho, líder do prefeito) e, para fechar, a fração final fez integrou administrações passadas de Firmino Filho.
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Queria entrar num buraco e sair só em 2028
Para “jeovazistas”, o que o vice-prefeito Jeová Alencar mais gostaria no momento era entrar num buraco e só reaparecer em 2028, ungido como candidato de consenso à sucessão de Sílvio. Não é possível, mas sonhar está liberado. “Jeová não quer aparecer porque não quer confusão com ninguém”, explicou um aliado. Ahh, certo…

Se é impossível se teletransportar para 2028, Jeová faz o que pode: evitar dar entrevistas, quase não atualiza o Instagram, limita-se a operar como articulador político e secretário municipal de Governo. No entanto, Sílvio é quem tem o pulso, ou seja, a caixa de ferramentas para liberar ou brecar “pacotes de bondades” – o que faz a conta-gotas, para chateação de muitos vereadores e suplentes. Para fazer política, é preciso ter o que oferecer, Jeová não tem. É de Sílvio a chave do cofre.
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Climinha meio chato
“Como o Sílvio já disse que não vai ser candidato à reeleição, gerou expectativa em todos os núcleos ao redor dele. Tudo que sai de ruim, os outros núcleos culpam o Jeová. Mas a a sala do Jeová é do lado da do Sílvio, e ele (prefeito) demonstra estar alinhado com Jeová. Se é fingimento ou não, ninguém sabe, mas ele (Sílvio) dá provas disso (confiança em Jeová)”, relatou um interlocutor com acesso privilegiado sobre o climinha não muito tranquilo no entorno do Palácio da Cidade.
Outro insider discorda: “Se o Sílvio tiver saúde, vai ser ele (candidato à reeleição), não tenho a menor dúvida”. Apostas na mesa (sem bet, por favor).

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Garras
Claro que qualquer um que sente na cadeira estadual ou municipal de Educação, tem no colo uma enorme vitrine de trabalho. É o caso do vereador Ismael Silva, nome sempre aventado nos bastidores para a sucessão de Sílvio.
Evangélico e advogado, ele integra a ala mais à direita que contribuiu, especialmente nas redes sociais, para a frente de comunicação paralela de Sílvio, que enfrentou uma força significativamente contrária da mídia tradicional nas eleições de 2024. Ismael é discreto, não encampa confrontos abertos. Marco Antônio Ayres e Charles Silveira, idem. Jeová também. Ninguém mostra as unhas, mas todos possuem garras.
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Faz um empréstimo logo pelo amor de Deus
“Sílvio dizia muito que não era político – ele até parou de falar porque a partir do momento que se elegeu e reelegeu é político. Tem que fazer política. Se não tem dinheiro, faz empréstimo, qual é o problema? O Rafael (Fonteles) está aí, cheio de empréstimo, mas as coisas rodando”, reclamou um membro da gestão, que está na fila de espera de uma importante licitação. A colunista sugeriu ao proativo gestor que desse a criativa ideia a Sílvio. Ele riu, em resposta.
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Se depender de mim, não vota nada
Núcleo que nunca pode ser ignorado é o dos vereadores. Um deles relata à coluna ter sido alvo de uma surpreendente nota de repúdio de uma liderança, postada no Instagram: “Ninguém tem nada e ninguém resolve nada. Tenho que lidar todo dia com liderança dizendo que não ajudei em nada nem ela e nem a comunidade. Rapaz, eu vou fazer o que se a prefeitura não dá nada?”, questionou (a colunista não sabe a resposta, alguém chuta?). O parlamentar diz que vai fazer o que pode. Traduzindo: “Se depender de mim, não passa nada dele (Sílvio) lá (na Câmara)”. Ihhh…

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Eu sou candidato e não abro nem pra um trem
Coluna no ar, lista de transmissão enviada, o telefone toca. O deputado federal Júlio César está na linha e tem um recado. Não para a colunista, que é só a mensageira (já avisei mil vezes…) mas aos leitores qualificados do boletim (na dúvida, volte uma coluna para entender).

“Está tendo muito fogo amigo. Tenho um partido aliado da base do Governo, tanto federal como estadual e o governador já disse pra todo mundo que MDB e PSD ficam com a vaga de senador. Ele falou que é do partido e quem indica é o presidente, e o presidente do PSD é Júlio César. A Jussara (Lima, esposa de Júlia e suplente de senadora no mandato) está no lugar provisório. O titular é o ministro Wellington (Dias) que temos o maior apreço. Ela nunca fez nada em discordando dele Wellington”, argumentou Júlio. Recado mais do que dado.
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A hipótese de intervenção na Federação de Futebol do Piauí
Vamos supor que a mudança nacional de comando na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) (saiu Ednald Rodrigues e entrou Samir Xaud) impacte no Piauí (leia uma digressão sobre esse tema por aqui). Nesse exercício meramente imaginativo, algumas etapas precisariam ser vencidas antes que uma intervenção judicial aconteça.
Um interventor teria que ser nomeado, alguém imparcial, sei lá, um advogado (hipótese). E esse interventor teria que tocar, portanto, a eleição para a escolha do novo presidente. Usando a lógica (sei que algumas pessoas relutam a isso), grupos atuais precisariam ser contemplados na chapa, né não?

O novo presidente da FFP, se tiver interesse em cargos maiores no futebol nacional, pode deixar vago o espaço em breve, o que facilitaria ainda mais a composição da chapa. E outra coisa que lembrei agora, a mudança no comando do Flamengo do Piauí ainda está amarrada judicialmente, não é? Uma intervenção dessas não aconteceria amanhã e coisa e tal. O que o leitor vai fazer nas férias de julho, aliás?
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Para ler, ver e ouvir
O gigante Mário Vargas Llosa faleceu aos 89 anos no último dia 13 de abril. Prêmio Nobel de Literatura, o peruano está – por justa causa – no panteão dourado da excelente safra de literatura latino-americana. Engajado politicamente (foi candidato à presidência do Peru em 1990, perdendo para Fujimori), afastou-se da esquerda e terminou a vida como um conservador liberal. Mas não é essa a questão. A obra de Llosa é incontornável para quem deseja navegar em um mundo onde autoritarismo e populismo ainda ressurgem como fantasmas. A colunista recomenda, com ênfase, “A Festa do Bode”(Alfaguara, 456 páginas).

Narrando os últimos dias do ditador dominicano Rafael Trujillo, um dos mais brutais da América Latina, Llosa expõe como o poder absoluto corrói não apenas as instituições, mas a alma daqueles que o exercem e dos que se submetem a ele. Alternando a voz do tirano, a dos conspiradores que o assassinam e a de uma mulher cuja família foi destruída pelo regime, o leitor tem em mãos um estudo sobre os mecanismos perversos que sustentam ditaduras. A leitura de Llosa é urgente.
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Se conselho fosse bom
Tenha ao mesmo tempo humildade para reavaliar suas posições e audácia para fazer as apostas mais ousadas. Falta de talento e de progresso é apenas ausência de paciência e autorrespeito. O sucesso, em qualquer área da vida, é inevitável se você se autoaprimora em seus pontos fortes por pelo menos dez anos. Sim, dez anos. Você queria para ontem?
Os medíocres não têm a paciência de se aprofundar em minúcias e vivem com pressa para criar um grande impacto. O trabalho deles revela todo o desleixo em não dar atenção aos detalhes. Você atrai o que você é e não o que você quer. Aqueles que são como você estarão com você. Se você tem pouco é porque o mundo é um espelho que reflete o pouco valor que você gera para si mesmo e para os outros. Simples assim.
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Cifrada do Terra de Cemitério
Num reino muito, muito distante, três cavaleiros lutam para trocar de lugar. O cavaleiro do Sul gostaria de sair urgentemente do buraco em que se meteu. Considerava que a terra prometida era um oásis, mas na verdade não passava de terra de cemitério (e tinha alguém comendo por baixo – e não era ele!). Para se ter ideia, só pra resolver um problema leve com o sábio rei, os cavaleiros tinham que passar por nada menos do que três instâncias, é mole?
Outro cavaleiro, da Cidadela Ambiental, cogitava ir para o reino do Sul. Ele reclamava aos quatro ventos que sua fração do reino não tinha nada, absolutamente nada, além de aguapés raquíticos: “Não tem nada pra fazer!”. Por sua vez, o Cavaleiro da Primeira Capital não topava ficar na Cidadela Ambiental (por motivos óbvios). E, para completar, o suplente Cavaleiro Guerreiro estava para deixar meio mundo de gente doido tentando voltar à Távola Redonda (para isso, alguém tinha que sair. O rei estava pouco preocupado com isso, portanto…). “Ninguém aguenta mais ele com essa ladainha”, reclamou um colega. Chato, né?
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Foto do dia
Ninguém tem nada a ver com isso, mas… O tapa na cara que a primeira-dama da França, Brigitte Macron deu no esposo, Emmanuel Macron, rodou o mundo nesta segunda-feira (26) ao desembarcarem de um avião no Vietnã. Como tudo foi registrado por câmeras, Macron precisou se pronunciar e minimizou o gesto de Brigitte alegando que tudo não passava de uma “brincadeira” durante uma “discussão”. Se for assim, a colunista avisa que se alguém “brincar” desse jeito com ela, pode ficar inclusive sem mão…

Alvo de ataques de cunho machista por conta da diferença de idade com o marido (ela tem 72 anos e ele 47), de quem foi professora, a cena com Brigitte deixou o governo francês constrangido. Mas nada disso é inédito. Lembra, no Brasil, aquele período em que o então presidente Fernando Collor tirou a aliança que usava, expondo a todos a crise no casamento com Rosane Collor. Políticos são gente e casais brigam. Mas convém segurar a barra para não levar ao público vulnerabilidades pessoais. Nunca sangre num tanque de tubarões.
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A frase para pensar
“Eu não jogo; eu luto”, Alexander Alekhine (1892-1946), ex-campeão mundial de xadrez, definindo seu jogo.
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Feito à mão
Entre tigres e leões, a charge do dia pelas mãos nosso cartunista Rico. Mais charges do boletim aqui:

- O Primeiro Triunvirato (60 a.C.), com Júlio César, Pompeu e Crasso, foi uma aliança informal que rompeu as regras da República para contornar a paralisia do Senado. O resultado? Uma guerra civil quando o equilíbrio de interesses ruiu. Já o Segundo Triunvirato (43 a.C.), formado por Otaviano, Marco Antônio e Lépido, nasceu como uma ditadura legalizada, mas logo degenerou em traições e conflitos sangrentos. A lição era clara: triunviratos começam como pactos de conveniência, mas quase sempre terminam em facas afiadas. ↩︎





