Meio Norte, Cidade Verde, GP1, 180, Lupa 1, Iel TV… os novos caminhos (e as pedras) no poder da mídia no Piauí

Boletim 23/07/25

“Abrirei minha boca em parábolas, revelarei coisas escondidas desde a criação do mundo” (Mt, 13,35)

“Você não quer uma TV fazendo uma campanha contra você, é claro. Antes, isso era um tiro de morte. Hoje, machuca, mas não é de matar, não…”, analisa um personagem envolvido em política estadual de alto escalão, ao boletim. 

O fim de um ciclo político, que se iniciou nos anos 2000 com a eleição de Wellington Dias (PT) ao Governo e Firmino Filho (PSDB) à Prefeitura de Teresina, agora dá espaço a uma nova relação entre mídia e poder no Piauí. 

A vitória de Rafael Fonteles (PT) em 2022 e o retorno de Sílvio Mendes (União Brasil) em 2024, ambos, de maneiras distintas, mais próximos do ecossistema de comunicação digital (e mais reticentes sobre os veículos de comunicação tradicionais), iniciam uma nova era da tríade: mídia, política e poder no Piauí. 

Mesmo assim, ninguém quer levar um tiro de canhão (TV), não é mesmo?

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Múltiplos poderes, nenhum absoluto

Alguns pensam que a mídia apenas reporta o poder. Mas isso não é verdade. Ela é o poder. Atenção, leitor: a verdadeira história nunca foi sobre o que o jornal/portal/TV publica, mas como decide o que NÃO publicar. Aqui está o pulo da pós-modernidade: o poder se fragmentou. Antes, a TV era “o reino”. Hoje, existem milhões de micro-reinos, cada um com seus súditos fiéis. 

Não dá para impedir a circulação de nenhuma informação porque os atores são múltiplos. Você pode atacar a credibilidade de alguns, tentar ignorar outros mas, ainda assim, é impossível controlar os discursos. A guerra é sobre qual discurso vai prevalecer.

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O que parece espontâneo é sempre resultado de estruturas invisíveis

Em “O Reino e o Poder”, o pai do jornalismo literário, Gay Talese1 revelou em uma clássica e extensa reportagem sobre o The New York Times, um fato que os donos de veículos de comunicação e os próprios políticos resistem em aceitar, mas que o público já está cansado de saber: as personalidades dos jornalistas e dos proprietários de veículos moldam a realidade tanto quanto os fatos. 

As reuniões fora da agenda, almoços e conversas de corredor criam a realidade. O poder real acontece nos espaços “não-oficiais”, onde não há atas nem registro.

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As televisões são hegemônicas no Piauí, mas viram seu poder se fragmentar

Nos anos 2000, o governo petista estabeleceu uma clara aliança estratégica com um forte grupo de mídia, eventualmente estendendo essa aliança com outras TV’s para projetos pontuais e mantendo a TV Clube (afiliada da Globo no Piauí, portanto, com uma marca forte) mais ou menos como adversária. Foram 20 anos disso.

Rafael Fonteles foi eleito com 38 anos, na esteira da ascensão/consolidação de poder uma nova geração de políticos na sua faixa etária (ex: Georgiano Neto, Jadyel Alencar, Dr.Francisco, Marcos Aurélio Sampaio, Enzo Samuel, etc). Eles estão na própria escalada de ascensão, mas desde já mudam as conexões com a mídia. 

“O novo ciclo do RF diminui a importância da TV e jornal escrito nem se fala. TV é a mais importante, porém, não é absoluta e o veículos tentam se encontrar. É uma relação frágil com os grupos de mídia tradicionais, mas ninguém quer ser antipatizado. Ainda estão buscando se aprofundar com os novos formatos. Nenhuma mídia será hegemônica”, aposta um político pode dentro das salas geladas desde a Era Wellington Dias, em off. Será?

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Petrus, Tony, Ribas & Pedro

Como o poder desde 2002 foi investido e consolidado nas TV’s, jornais e sites tradicionais, coube à direita do espectro ideológico usar a criatividade e os poucos recursos disponíveis. Funcionou. São nomes como Petrus Evelyn (dono da página O Piauiense no Instagram e eleito vereador de Teresina pelo Progressistas) e Tony Rodrigues (com presença no Youtube e Instagram em análises que viralizam).

Petrus Evelyn, Pedro Alcântara, Tony Rodrigues, Ribas Doran

Na nova pegada, Ribas Doran (jornalista com foco na atuação digital bem-humorada e na escrita analítica no viés crítico à direita) além de Pedro Alcântara (que tem uma das melhores páginas de político no Instagram piauiense hoje, com autenticidade e humor, mas mantendo o lastro de seriedade que trouxe “do bolso”, ops, da TV).

Em geral, eles não vendem notícias, vendem identidade emocional. Quer o leitor concorde ou discorde deles, o produto real é o sentimento de pertencimento tribal a um grupo com valores claros. 

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O fenômeno Teônia e a lacuna da esquerda

E a esquerda? “A esquerda tenta performar a espontaneidade e não consegue porque está dentro do status quo”, resumiu um político, de esquerda, em um lampejo de auto-sincericídio. 

Apesar disso, há de se admitir que Teônia Pereira, comunicadora que comenta no Iel TV, do jornalista Ieldyson Vasconcelos, tem trabalhado para diminuir a distância com a direita usando as mesmas estratégias em polo oposto: sinceridade sem filtros, defesa ferrenha e apaixonada de um lado definido e, mais recentemente, alcance nacional com o rumoroso processo impetrado por Michele Bolsonaro após Teônia afirmar que a ex-primeira-dama teria sido garota de programa no passado. Mesmo assim, a esquerda carece de mais jogadores, com perfis distintos, desse lado.

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O Iel TV: o futuro é bem aqui?

Com poucas palavras, o Iel TV é uma tentativa de um player da TV (o experiente Iéldyson Vasconcelos) de migrar para o digital tateando um formato viável onde ninguém mais conseguiu. Um observador no campo da Comunicação elogia a empreitada de Ieldyson: “Ele existe e esse é o futuro, é isso bem aqui. Ele (Ieldyson) deu sinais de que quem souber fazer da maneira correta, se dá bem”. 

Claro que tentar imitar Iéldyson é um negócio complicado. E provavelmente muito caro, afinal, o estúdio da Iel TV tem equipamentos e estrutura de ponta, dificilmente reproduzível em curto prazo ou sem um padrinho forte. Não que não tenha gente tentando…

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Silas TV, Dito Isto e OitoMeia

Decidi escrever sobre esse tema quando vi o vídeo do jornalista Silas Freire (você assiste abaixo) anunciando a saída dele do grupo Meio, onde trabalhou por 37 anos, para seguir num projeto profissional próprio. Além do site Encarando, onde escreve diariamente uma coluna que repercute no mundo político (leia aqui), Silas lançará o “Silas TV”, ou seja, aliará a experiência de apresentador de programas policiais de audiência a um novo formato a ser experimentado por ele.

Há alguns anos, deixar a TV era impossível, afinal, para onde ir? Agora, há um “para onde ir”. O casal de jornalistas Gustavo Almeida e Andressa Martins investiram em marca própria e lançaram no início do ano o “Dito Isto”, um site de notícias e bastidores com foco em política após deixarem o grupo Lupa 1 (confira o trabalho deles aqui) e têm mostrado que há vida (e pontos de vistas) fora do eixo midiático tradicional.

Necessário destacar ainda o portal OitoMeia, do jornalista Allisson Paixão, que completa nove anos de atuação no Piauí. Allisson foi editor-chefe por muitos anos do 180 Graus e é um nome bastante conhecido do público sem nunca ter, contudo, atuado em TV (exceto uma passagem como âncora na rádio CBN Teresina). O Oito Meia (confira aqui) tem um time jovem mas também o experiente (icônico) jornalista policial Efrem Ribeiro. Hoje, Allisson é o responsável, no Piauí, pela comunicação do senador Ciro Nogueira, atuando discretamente em estratégias e bastidores.

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PG, Wrias e Iran

Quem já sentou-se para conversar com o empresário Paulo Guimarães sai de lá com uma constatação: ele tem o raciocínio rápido, é educado mas objetivo, intuitivo e sensível ao que o interlocutor pode estar querendo (calibrando bem o ajuste de expectativas). Mesmo quando é caloroso, amistoso e aberto, uma parte dele permanece inacessível.

É difícil pensar em substituir PG, falando em futuro. Não que a Meio não esteja pensando nisso. Com a saída (resolvida e encerrada) do empresário e ex-diretor de jornalismo Wrias Moura do Grupo Meio, ainda no ano passado, um vácuo se estabeleceu de certa forma, pois só PG é PG e só Wrias era Wrias. 

O dinâmico genro (casado com a filha de Paulo, Maria Laura) Iran Felinto, tem entrada no grupo de Rafael Fonteles (já viajou com o entourage para o exterior, a negócios) mas não dá mostras de ter interesse de entrar no business da comunicação, focando nos grandes eventos que toca com o selo da empresa-mãe, Meio.

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Daqui pra frente, MN de novo

O Grupo Meio (que deve voltar a se chamar “Meio Norte), é pioneiro no ramo de tentar se modernizar, é preciso admitir. Está sempre tentando se reinventar no digital e foi na frente nos podcasts de TV aberta, mas perdeu um pouco da própria identidade (além de confundir o telespectador local) com o projeto de se nacionalizar. Deve retornar agora um novo projeto de projeção digital. O boletim acompanhará os passos vindouros. 

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A tríade hegemônica na web: 180, CV e GP1

Na web, são players digitais hegemônicos: 180Graus (do empresário Hélder Eugênio, que também atua informalmente como consultor/conselheiro de políticos de todos os portes e pedigrees), o GP1 (do empresário Júlio César Holanda, especialista em política, jurídico e municípios, com foco em informações inéditas obtidas com trabalho investigativo) e Cidade Verde (braço do Grupo Cidade Verde, com selo e formato tradicional, aliado à credibilidade reconhecida da família Tajra). 

Jesus Tajra Filho, Júlio César Holanda e Hélder Eugênio

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Lupa 1 e Conecta 

Lupa 1 (do empresário e jornalista Tony Trindade) entrou para brigar (e briga bem) com a tríade do poder na web, escalando em agilidade e diversidade. A novidade fica com o Conecta Piauí, que tem uma estrutura visivelmente forte, ensaiando estender seus braços para rádio e webTV, sendo visto nos bastidores como veículo preferencial no alinhamento político com o Governo Fonteles (assim como o 180Graus, este último numa vertente de caráter mais editorial).

Tony Trindade e Thiago Monteiro

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O jornalismo político sempre foi elitizado 

O jornalismo político sempre teve um recorte de consumo elitizado, apesar do Piauí ser uma exceção pois a população em geral, ricos e pobres, é bastante politizada, acompanhando a política como quem consome uma novelinha com heróis, vilões e, bom… palhaços (ihhh!). 

Jornalistas do Jogo do Poder/Agora (Ari Carvalho, Socorro Sampaio, Apoliana Oliveira, Francy Teixeira e Marta Santos, programa da Meio, ancorado por Amadeu Campos)

Com o hábito de ir para a casa ao meio-dia para almoçar, descansar e, claro, ver TV, o Piauí tem (ou tinha) o horário nobre no intervalo de 12h às 14h e não a noite, na faixa do Jornal Nacional (nas grandes metrópoles, homens e mulheres têm um enorme custo de tempo em se locomover e só voltam para casa ao fim do expediente). Assim sendo, esse é (ou era) o horário dos programas de política que nunca foram um estouro de audiência, mas faziam a cabeça dos políticos, servidores públicos e tomadores de decisão. E isso importa.

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O Bancada e o jornalismo policial

O fato de o tradicional programa de política da TV Antena 10 – que tem um time experiente e azeitado – o Bancada (agora “Balanço Político”), ter virado há poucas semanas uma espécie de quadro dentro do programa policial apresentado pelo popular apresentador Beto Rego, é sintomático de uma mudança geracional e de consumo: a TV tem sido cada vez mais assistida pelas classes D e E, mulheres, idosos e pessoas sem renda ou com renda intermitente. 

Time do Bancada: Weslley Sales, Lídia Brito e Eliézer Rodrigues

Os donos do poder, do dinheiro e das decisões estão vendo menos TV real time, mas ainda são impactados por ela nos recortes que circulam na internet (trechos descontextualizados que podem tomar proporções irremediáveis). A avalanche informacional mudou a forma de atender aos públicos e há, nesse exato momento, um vazio que ninguém tem conseguido efetivamente preencher.2

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Em problemas, dobre

“As pessoas querem velocidade, consumir no seu tempo. A verdade é que ninguém está conseguindo se comunicar, mas está todo mundo tentando, usando fórmulas antigas, receitas tradicionais e querendo um bolo novo e inédito”, finalizou um político estadual que acompanha de perto os movimentos televisivos.

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Negócio de gente grande

“Até pouco tempo atrás ser dono de um veículo em Teresina, você era a elite, bebia whisky com os caras, e hoje em dia não. O que faz X (empresário tradicional de comunicação do Piauí) estar na roda de conversa com os Rafaboys (secretários e figuras do círculo próximo do Governo petista) é porque tem outros negócios”, explica um ex-secretário de Comunicação, sempre em reserva. 

Ou seja, quem mede a influência econômica do Poder Público na mídia, considerando apenas cotas de patrocínio, está olhando para o alvo errado. Concessionárias, eventos, negócios no agro, imóveis e campeonatos de futebol são braços extensos e quase invisíveis por onde o poder circula. Quase.3

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Ele só pode estar louco

Um grande empresário de mídia tradicional ficou surpreso ao ver quem um ex-colaborador, Y, tinha decidido investir forte no mesmo ramo, com uma concessão de TV no Piauí. “Isso aqui é um negócio perdido, não sei de onde o Y tirou de investir o dinheiro dele em TV. Fumo grande!”, lamentou o player que, no entanto, não pensa em, ele próprio, se desfazer do próprio veículo, ora, ora. Afinal, eu nunca vi ninguém abrir mão de poder, leitor, e você?

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Quem te deu o cargo de ombudsman, minha senhora?

Como você pode ler na minha ironicamente longa (ou não) mini-bio abaixo, eu já estagiei e trabalhei em muitos lugares: fui produtora na TV Antares, estagiária no 180Graus, editoria e âncora na CBN Teresina, editora-chefe no OitoMeia, comentarista na Meio Norte (e, antes disso, repórter do impresso) e Cidade Verde, em várias encarnações. 

Eu, numa encarnação em que fui loira e usava tranças e estampas, sendo repórter ao lado de Elivaldo Barbosa e Cinthia Lages. Anos 2000 e alguma coisa.

O que acredito e tento fazer aqui nesse projeto independente e paralelo do boletim é que devemos pensar numa “explicação meditada” de fatos acelerados. Faço slow content (conteúdo lento e não-perecível), não estou competindo com nenhum dos citados acima (sou um peixinho de 1,50m num laguinho, eles são tubarões de 30m no Oceano Pacífico) e me sinto bem a vontade para observar o cenário e, quem sabe, voltar aqui depois com outras ideias. Quem sabe.4

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Para ler, ver e ouvir

Está claro que o Governo Lula III carece de discurso e quando conseguiu um (dado de bandeja por Donald Trump e, antes disso, pelo Congresso Nacional na questão do IOF), reagiu positivamente. Ou seja, produzir sentidos é o que cria vencedores e perdedores.

O que acontece quando não ouvimos o “outro lado”? Os evangélicos estavam presentes no documentário de Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos”(na Netflix), é verdade, mas quais evangélicos e sob qual enquadramento? A lacuna de uma escuta mais empática com o “outro lado” não fará o que é diferente e complexo sumir. 

O público evangélico é mesmo apenas massa manipulada ou cúmplice de um delírio autoritário? Não há outro caminho? Essa representação, embora amparada por dados e imagens reais, carece de um esforço dialógico, o que impede a travessia estética e emocional entre os campos em disputa. Como registro histórico e estético, ainda assim é uma obra obrigatória para aquelas que precisam entender a história do agora (todos nós).

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Se conselho fosse bom

A maioria das pessoas vive desperdiçando muita energia mental pensando demais em várias direções ao mesmo tempo. Os inseguros ocupam seu extenso tempo livre acreditando que estão sendo julgados por pessoas confiantes que estão apenas cuidando da própria vida. Não perca tempo discutindo o senso comum básico. Lembre-se: a hierarquia não recompensa o esforço e sim a vantagem. 

Não há motivo para ficar ansioso se você não tem excesso de pensamentos e é capaz de cumprir as promessas que faz a si mesmo. Na prática, quase ninguém vale o esforço de uma resposta ou ato seu. Ignorar o ruído e saber escolher as batalhas é crucial. Mas, nas raras ocasiões em que é preciso focar na autopreservação, seja implacável: rasgue a jugular.

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Cifrada do Não Abro Nem Pro Trem

Num reino em que o Cavaleiro Acelerado é o verdadeiro chefe do clã Lemon, novos poderes requerem novas responsabilidades. Por exemplo: como fazer a Cavaleira Serenela passar dos 27 mil votos no torneio quadrienal se o Cavaleiro dos Transportes Mágicos já avisou que fez o dever de casa e não abre nem para um trem? Como conciliar o sonho dos cavaleiros dentro do sonho do rei? Mas, Cavaleiro Acelerado não costuma desistir fácil das coisas… e sacou uma carta especial com uma proposta quase irrecusável: será se o Cavaleiro dos Transportes não topa ser o segundo suplente do pai dele na chapa real ao Conselho dos Anciãos na Cúria Romana? Combinando direitinho com os russos, pode ter rumo?

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Foto do dia

Paradoxo: o sociólogo alemão Max Weber definiu Estado como “monopólio legítimo da força”(vou tentar resumir: toda autoridade política depende da capacidade de violência, mas só funciona quando essa violência raramente precisa ser usada). O ex-presidente Bolsonaro, que militarizou o governo, pode ser preso pela própria lógica militar que ele exaltava: hierarquia, disciplina, (des)cumprimento de ordens judiciais. Assim como aconteceu com Lula, que foi preso nos anos de ouro da Lava Jato, o “estamento burocrático” sempre sobrevive aos governantes. 

Mas a política brasileira opera no tempo da urgência, enquanto as instituições funcionam no tempo da duração. Ora, quanto mais rápida fica a política (redes sociais, pressão popular), mais lenta parece a resposta institucional.

Agora, se focarmos as lentes para trás, talvez só 1992 mostrou o tempo político acelerado (Fora Collor) forçando instituições lentas (impeachment) a acelerarem. Foi quando o movimento popular conseguiu sincronizar temporalmente política e instituições pela primeira vez na história brasileira.

Já a Lava Jato tentou impor tempo judicial (lento, processual) ao tempo midiático (instantâneo, espetacular). Resultado: quando instituições tentam acelerar além de sua natureza, elas se deslegitimam. Lição para o Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes e o próprio Bolsonaro, com sua tornozeleira e as (nossas) tarifas.

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A frase para pensar

“Nem mesmo Deus conseguiria afundar este navio”, garantiu Edward Smith, capitão do Titanic, quando foi alertado sobre os riscos do gelo naquela região. O Titanic afundou.

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Música da semana

A música “Sinais de Fogo”, cantada por Preta Gil em seu disco de estreia em 2003, subverte nossa relação com o perigo (a versão da coluna é cantada com Ana Carolina). Normalmente, sinais de fogo significam evacuação, fuga. Mas Preta os transforma em convocação: você deve ir em direção ao fogo, não fugir dele. As opções são: ser “queimado” pela vida/circunstâncias ou virar a própria fonte do incêndio. 

Que sejamos conscientes da nossa existência no tempo do “agora ou nunca”. Não é nostalgia nem ansiedade futura: é o presente absoluto. Vivamos!

  1. Não foi Talese que disse que “um escritor raramente agrada as pessoas sobre as quais escreve se tenta fazê-lo com honestidade”? ↩︎
  2. Um dos problemas da cooperação entre imprensa e governos, ou oposição, que seja, é que acabam defendendo os interesses um do outro e não do público que teoricamente representam. É uma linha tênue e complicada. O boletim não vai entrar tanto nesse assunto hoje. Outro dia, quem sabe? ↩︎
  3. Se você gostou do assunto, eu já escrevi sobre o tema das agências de publicidade e suas disputas de poder no Piauí antes: leia aqui.  ↩︎
  4. Obrigada por sentar hoje na nossa fogueira online – uma troca de histórias semanal (ou sabe-se lá qual frequência) de pessoas que gostam do mesmo tema: entender como as engrenagens do poder funcionam fora de Nárnia. ↩︎

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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